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A criança que fomos e o natal que inventamos: retornos do inconsciente



Há algo no Natal que escapa às luzes, às vitrines e ao calendário. Essa época do ano parece abrir fendas por onde retornam afetos antigos, desejos infantis e cenas que nunca desapareceram de fato — apenas se recolheram em silêncio. Freud nos ensinou que o inconsciente não conhece tempo: nele, o passado continua ativo, vivo, pulsante. Por isso, mesmo adultos que se dizem “desligados” das festas podem se ver tomados por uma saudade inexplicável, por um entusiasmo desmedido ou por uma tristeza que não sabem nomear. O Natal, com sua atmosfera carregada de símbolos, funciona como um disparador emocional que convoca a criança que um dia fomos — a criança que esperou, desejou, temeu, fantasiou.

Para Freud, aquilo que retorna nas festas não é uma lembrança literal, mas um traço mnêmico: um resto afetivo que sobreviveu às transformações da vida adulta. Músicas, cheiros, rituais e encontros familiares atualizam esses traços e despertam emoções que pertencem a camadas profundas da psique. Isso explica por que o Natal é vivido com tamanha ambivalência: ele toca tanto o desejo infantil pela completude — o sonho de uma família harmônica, presente e amorosa — quanto a dor causada por frustrações inevitáveis. Quando a realidade não coincide com esse ideal, emerge aquilo que Freud chamou de desamparo primordial, uma sensação muito antiga de depender de um outro para sentir-se seguro. No Natal, essa memória afetiva costuma ser reativada com grande força.

O psicanalista húngaro, Sándor Ferenczi acrescenta uma dimensão ainda mais específica para compreender essa sensibilidade natalina: a marca do trauma relacional. Sua teoria da “confusão de línguas” descreve como, na infância, a criança é frequentemente convocada a compreender e administrar emoções que pertencem ao adulto — expectativas, tensões, silêncios, humores, carências. Em muitas famílias, especialmente nas datas festivas, adultos estressados ou emocionalmente indisponíveis podem exigir da criança uma maturidade precoce: que ela seja compreensiva, comportada, sensata, como se fosse capaz de “consertar” o ambiente. Essas experiências deixam inscrições psíquicas que retornam justamente em ocasiões como o Natal. Assim, quando hoje alguém sente cansaço antecipado, medo de conflito familiar ou um impulso de “manter tudo bem”, pode estar reagindo, sem perceber, ao eco da criança que um dia precisou se adaptar para sobreviver emocionalmente.

Ferenczi também nos lembra que o trauma não se expressa apenas em lembranças: ele reaparece no corpo, nos afetos, nos gestos. A ansiedade difusa antes da ceia, o enjoo ao reencontrar um parente, o corpo rígido durante a confraternização — tudo isso pode ser uma forma de memória emocional que busca reconhecimento. Para ele, a cura começa quando o sujeito é autorizado a sentir aquilo que sente, sem ser forçado a silenciar, minimizar ou performar alegria. Essa é uma chave importante para repensar o Natal: não como uma obrigação festiva, mas como um espaço onde a autenticidade possa valer mais que a aparência.

Winnicott, por sua vez, nos oferece uma compreensão profunda sobre o papel do ambiente. Para ele, o que sustenta a vida psíquica saudável não é a perfeição, mas um ambiente “suficientemente bom”, capaz de acolher espontaneidade, frustração tolerável e criatividade. O Natal, nesse sentido, é um cenário privilegiado para observar como cada sujeito se relaciona com esse ambiente. Famílias capazes de prover um clima emocional estável e acolhedor costumam permitir que as pessoas vivam a festa de maneira lúdica, simbólica, inventiva. Já ambientes rígidos, caóticos ou emocionalmente imprevisíveis tendem a produzir exatamente o oposto: um Natal tenso, exaustivo, cheio de performances que escondem sofrimento.

A distinção winnicottiana entre verdadeiro self e falso self aparece com nitidez nas festas. Muitos fazem o esforço de “parecer bem”: sorriem, servem, conversam, mas por dentro sentem-se desconectados. É o falso self em ação — uma defesa construída quando, na infância, o ambiente não tolerou a autenticidade do sujeito. O verdadeiro self, ao contrário, só floresce quando há espaço para espontaneidade, jogo e expressão genuína. Por isso, pequenos gestos de acolhimento — uma conversa sincera, um silêncio respeitoso, um reconhecimento de limite — podem fazer do Natal um momento de reparação emocional. Winnicott diria: é o ambiente que cura.

Ao articularmos Freud, Ferenczi e Winnicott, vemos que o Natal não é apenas uma festa: é um campo afetivo, onde se encontram desejos infantis (Freud), feridas relacionais (Ferenczi) e necessidades de ambiente e autenticidade (Winnicott). A forma como cada pessoa atravessa essa época do ano depende da história emocional que carrega: de como foi olhada, escutada, contida — ou não — na infância.

O Natal pode ser, então, menos sobre rituais e mais sobre reencontros internos. Um convite para perceber que a criança que fomos continua viva em nós — ainda esperando, temendo, desejando. Em vez de exigir que tudo seja perfeito ou festivo, talvez possamos viver essa data com mais delicadeza: permitindo que o que vier, venha; que o que doer, seja reconhecido; e que o que for bom, seja acolhido sem culpa. Assim, ao invés de apenas repetir roteiros familiares, podemos criar novos modos de existir no encontro — consigo e com os outros.

Se existe um presente possível, é este: oferecer à criança que fomos um pouco da escuta, da ternura e do ambiente que talvez lhe tenham faltado. Nesse gesto simples — profundamente psíquico — o Natal deixa de ser apenas memória e se torna possibilidade.

Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe

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