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Por trás do palco: psicanálise, trauma e a criança que Michael Jackson carregou

Acabo de assistir o filme Michael, dirigido por Antoine Fuqua e protagonizado por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor, cuja semelhança física e performática impressiona, este longa poderia facilmente render-se à lógica das cinebiografias convencionais: o menino pobre que venceu, o talento que conquistou o mundo, a fama como redenção. Mas há algo mais inquieto e mais honesto atravessando a obra. Por baixo do brilho dos palcos, dos figurinos e das coreografias que definiram uma época, o filme sugere uma pergunta diferente e mais perturbadora: o que aconteceu com a criança que precisou crescer rápido demais? É essa pergunta que confere a este filme uma dimensão psicanalítica genuína, na minha opinião. Antes do ícone, havia um menino. E esse menino foi submetido, desde muito cedo, a uma pressão que não lhe pertencia: a pressão de performar, de corresponder, de ser perfeito para que o desejo dos outros (do pai, do mercado, do público) pudesse ser satisfeito. Winnicott nos ensinou que o dese...
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A vida que não para: sobre o cansaço que ninguém vê e o descanso que ninguém ensina

Existe um tipo de cansaço que não aparece nos exames. Não tem febre, não tem inflamação, não tem nome clínico imediato. É aquele cansaço que chega depois de um dia em que “não aconteceu nada”, mesmo assim o corpo pesa, a cabeça não para, e a única coisa que se quer é que o mundo faça silêncio por um momento. Um cansaço que, quando tentamos explicar, encontra de volta a pergunta desconcertante: “Mas você fez o quê hoje?”  Vivemos num tempo em que o descanso precisou aprender a se justificar. Não é apenas que trabalhamos demais, embora trabalhemos. É que aprendemos a habitar uma relação com o tempo em que parar passou a exigir razão suficiente. O descanso tornou-se um prêmio, não uma necessidade. Algo que se conquista depois da produtividade, não algo que a antecede e a sustenta. E quando o corpo para antes que a permissão interna chegue, o que surge não é descanso, é culpa. A psicanálise oferece uma lente precisa para esse fenômeno. Freud já observava que o eu (o ego) não é apenas u...

Mais que autoconhecimento: a psicanálise como experiência de cura

Há uma cena que se repete nos consultórios de psicanálise ao redor do mundo: alguém se deita ou se senta diante de um analista e começa a falar. Parece simples. Mas o que acontece a partir daí não tem nada de simples e tampouco se resume ao que a maioria das pessoas imagina quando pensa em psicanálise. Não é uma conversa para “se conhecer melhor”. É algo mais profundo, mais exigente e, em muitos casos, mais transformador do que qualquer outra experiência que uma pessoa já teve. A fala que transforma A psicanálise nasce de uma aposta radical: a de que a palavra tem poder de cura. Não a palavra como informação, como conselho ou como diagnóstico, mas a palavra como experiência. Quando alguém fala em análise, não está apenas descrevendo o que sente. Está, muitas vezes pela primeira vez, dando forma a algo que existia apenas como dor difusa, como angústia sem nome, como comportamento repetido sem compreensão. A fala, nesse contexto, não descreve a experiência, ela a constitui. Freud perceb...

Psicanálise não é só autoconhecimento

Reduzir a psicanálise a uma simples busca por autoconhecimento é perder de vista a profundidade de sua proposta. Desde Sigmund Freud, a experiência analítica nunca se limitou a “saber mais sobre si mesmo”. Seu verdadeiro objetivo é produzir transformações profundas na forma como vivemos, sofremos e nos relacionamos. Nesse contexto, o autoconhecimento é mais um efeito colateral do que a finalidade última. A psicanálise não gira em torno de uma consciência que se amplia progressivamente, mas de um inconsciente que insiste, retorna e precisa ser compreendido e simbolizado. Conhecer-se, aqui, não é acumular informações sobre si, mas ter a coragem de encarar aquilo que, dentro de nós, escapa ao nosso próprio controle. Freud já dizia que “o eu não é senhor em sua própria casa”. Essa afirmação desconstrói a ideia de autoconhecimento como um domínio racional sobre si mesmo. O inconsciente não é um baú de memórias prontas esperando para ser descoberto; ele se revela e se constrói na relação com...

Ansiedade na infância: o que o sofrimento tenta dizer

A palavra ansiedade tem origem no latim anxietas, derivada de angere — “apertar”, “sufocar”, “estrangular”. A própria etimologia já oferece uma pista importante: a ansiedade é, antes de tudo, uma experiência de constrição, de aperto interno, como se algo no corpo ou na mente estivesse excessivamente tensionado. No campo da psicologia e da psicanálise, ela não é compreendida como um sintoma isolado, mas como um fenômeno complexo que atravessa o sujeito em sua relação com o mundo, com o outro e consigo mesmo. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que os transtornos de ansiedade estão entre os mais prevalentes no mundo, afetando centenas de milhões de pessoas — e, de maneira crescente, também crianças e adolescentes. Esse dado não deve apenas alarmar: deve, sobretudo, convidar à compreensão do que está em jogo quando a ansiedade se instala desde os primeiros anos de vida. Na infância, a ansiedade não pode ser pensada como uma versão “menor” da ansiedade adulta. Ela possui lógica ...

O tempo que não temos: ansiedade e pressa na vida contemporânea

  Vivemos em um tempo em que a pressa deixou de ser circunstância para se tornar modo de existência. Tudo pede resposta imediata: mensagens, decisões, posicionamentos, sentimentos. Há uma expectativa silenciosa de que estejamos sempre disponíveis, sempre prontos, sempre funcionando. Nesse cenário, a ansiedade aparece, muitas vezes, como um problema a ser eliminado , quando talvez seja mais preciso escutá-la como linguagem de um tempo que já não tolera o intervalo. No cotidiano, a ansiedade costuma ser nomeada como excesso: excesso de pensamento, de preocupação, de antecipação. Mas, do ponto de vista psicanalítico, ela também pode ser compreendida como sinal — um sinal de que algo insiste sem encontrar forma de simbolização. Não é apenas o medo do que pode acontecer, mas a dificuldade de sustentar o não saber, o inacabado, o que ainda não tem nome. Em um mundo que exige clareza e rapidez, o sujeito se vê pressionado a responder antes mesmo de poder elaborar. A pressa, nesse sentido,...

“Meta dos pés”: quando o corpo é convocado a fazer o que a alma não consegue

Quem conhece o interior do Agreste sabe que, por aqui, ninguém para enquanto há o que fazer. A lida começa cedo, o sol ainda não subiu, e já há alguém de pé — cuidando do gado, abrindo o comércio, tirando o leite que vai virar o queijo que vai sustentar a família. É uma cultura do movimento, da persistência, do corpo que não cede. Um corpo que aprendeu, ao longo de gerações, que parar tem um custo alto — e que seguir em frente, mesmo quando dói, é quase uma forma de honrar os que vieram antes.   É dentro desse mundo, então, que a frase de um pai ganha todo o seu peso. Ao ver o filho deitado, tomado pela apatia, ele diz com aquela mistura de afeto e impotência que só os pais conhecem: “ Meu filho, meta dos pés. ” Não é apenas um incentivo ao movimento. É uma tentativa — ainda que sem palavras técnicas para isso — de devolver ao filho um lugar no mundo; de chamar de volta alguém que, de cima da cama, parece estar se afastando silenciosamente da própria vida — e que talvez nem saiba,...
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