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Amor em tempos de deslize: vínculos frágeis e o mal-estar no encontro

Vivemos em tempos em que um simples movimento de dedo pode abrir ou encerrar a possibilidade de um encontro. Basta deslizar para a direita ou para a esquerda. Essa facilidade — ao mesmo tempo fascinante e inquietante — espelha um novo modo de se relacionar: mais rápido, mais leve, aparentemente mais livre e, paradoxalmente, mais solitário. Não se trata apenas do Tinder ou de outros aplicativos de encontro. Eles são o sintoma mais visível de algo mais profundo: uma transformação na forma como o amor, o desejo e os vínculos vêm sendo vividos na contemporaneidade. O que está em jogo é uma nova lógica relacional, marcada pela descartabilidade, pela ansiedade da escolha e pela idealização de um encontro perfeito que talvez nunca se concretize. Zygmunt Bauman descreveu esse cenário como a era da modernidade líquida — uma fase histórica em que nada é feito para durar e tudo precisa ser flexível, ajustável, facilmente substituível. As relações afetivas não escapam dessa lógica. Ao contrário: t...
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O diálogo como ato de amor: o que a psicanálise nos ensina sobre o silêncio nos relacionamentos

  Há uma pergunta que ressurge com frequência nos consultórios e nas conversas cotidianas: um relacionamento pode existir sem diálogo? A resposta, como quase tudo que diz respeito à experiência humana, não é simples — mas a psicanálise nos oferece ferramentas preciosas para pensá-la com a seriedade que ela merece. Sigmund Freud já nos ensinava que o sujeito não existe no vácuo. Nos constituímos na relação com o outro, atravessados pelo desejo, pelo conflito e pelo reconhecimento. Isso significa que mesmo quando não falamos, algo está sendo comunicado — sintomas, silêncios, atos esquecidos. O silêncio, portanto, não é ausência de linguagem; é uma linguagem em si. O problema é que, sem palavras, essa linguagem tende a falar apenas de sofrimento. Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, nos oferece uma imagem bonita e precisa: o amadurecimento emocional depende de um ambiente suficientemente bom, onde possamos existir diante do outro sem nos sentir ameaçados ou apagados. O di...

A travessia que nos faz: páscoa, psicanálise e o tempo do deserto

A cada ano, quando a Páscoa se aproxima, somos convidados a revisitar uma das narrativas mais potentes da experiência humana: a passagem . Na tradição judaica, a Pessach ,  palavra hebraica que evoca precisamente a ideia de “ passar por cima ” ou “ poupar ”, referindo-se ao anjo que poupou os primogênitos hebreus, rememora a saída do povo do Egito: não apenas um deslocamento geográfico, mas uma travessia simbólica da servidão em direção à possibilidade de existir com mais liberdade. Na tradição cristã, a Páscoa celebra a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, evento que a teologia cristã primitiva compreendeu como cumprimento e releitura da própria Pessach judaica — daí a palavra “ Páscoa ” derivar do aramaico pascha , transliteração do hebraico pesach . Em ambas as tradições, há um fio comum: a transformação que se dá através da dor e da espera. Sob o olhar da psicanálise, essas narrativas não são apenas eventos históricos ou dogmas religiosos, mas verdadeiras metáforas do func...

Quando o pensamento adoece: uma escuta psicanalítica sobre o que nos habita

“ Eu sei que não faz sentido pensar assim, mas não consigo parar. ” A frase, dita com frequência nos consultórios e nos encontros cotidianos, revela algo fundamental sobre a experiência humana: nem todo pensamento é aliado. Há ideias que insistem, retornam, se impõem e, pouco a pouco, produzem sofrimento. A psicanálise, desde Freud, nos convida a suspeitar da aparente transparência do pensar. Nem sempre pensamos o que queremos; muitas vezes, somos pensados por aquilo que nos atravessa. Freud já indicava que o eu não é senhor em sua própria casa. Parte significativa da nossa vida psíquica opera fora do campo da consciência e o que aparece como “ pensamento negativo ” pode ser, na verdade, o retorno de algo não elaborado: uma tentativa do psiquismo de dar forma a experiências que não encontraram simbolização suficiente. Pensamentos repetitivos, autodepreciativos ou catastróficos não são ruídos aleatórios. São sinais de que algo pede escuta. Wilfred Bion aprofundou essa compreensão ao pro...

Entre rumores e relações: um ensaio sobre fofoca.

A fofoca costuma aparecer, no senso comum, como um vício menor da vida cotidiana: algo superficial, fútil ou moralmente condenável, próprio de pessoas ociosas ou malévolas. Entretanto, quando observada com mais atenção e com as ferramentas que as ciências humanas nos oferecem, ela revela dimensões surpreendentemente profundas da experiência humana. A psicanálise, a filosofia e a sociologia convergem ao mostrar que falar da vida alheia não é apenas uma distração social passageira, mas um fenômeno que envolve linguagem, desejo, poder, identidade e pertencimento. Longe de ser um simples ruído de fundo da convivência, a fofoca pode ser compreendida como um espelho discreto da vida psíquica e das estruturas que organizam a vida coletiva. Nela se refletem, muitas vezes sem que nos demos conta, os traços mais íntimos de quem somos e do tipo de mundo que habitamos.   Do ponto de vista da psicanálise, desde Sigmund Freud aprendemos que a fala nunca é completamente inocente. As palavras ...

Cuidar da mente é cuidar do futuro

Vivemos um tempo em que quase tudo é urgente. O trabalho exige, as contas vencem, os compromissos se acumulam. Em meio a essa rotina acelerada, estar presente na escola do filho é um gesto que carrega significado profundo: é a afirmação de que o futuro importa. Quando família e escola se encontram, algo maior do que uma reunião acontece — constrói-se uma ponte. E essa ponte não é feita de concreto, mas de confiança. A criança percebe, mesmo sem que ninguém lhe diga explicitamente, quando os adultos que a cercam caminham na mesma direção. Essa percepção silenciosa é o que lhe dá segurança para crescer. A psicanálise, especialmente a partir das contribuições de Donald Winnicott, nos ensina que não é a perfeição que forma um sujeito saudável, mas a constância de um ambiente suficientemente bom. Isso significa um espaço onde a criança pode errar sem ser humilhada, pode chorar sem ser ignorada, pode ser contrariada sem deixar de ser amada. Um ambiente suficientemente bom não elimina frustra...

Dezembrite: quando o fim do ano pesa por dentro

A chamada dezembrite é um termo popular que passou a nomear um mal-estar bastante reconhecível para muitas pessoas: cansaço extremo, irritabilidade, tristeza difusa, ansiedade e uma sensação de sobrecarga emocional que costuma se intensificar em dezembro. Não se trata de um diagnóstico clínico, mas de uma palavra que ajuda a dar forma a uma experiência comum. Ao nomear algo que antes era vivido de maneira confusa, o termo permite reconhecer que o sofrimento de fim de ano não é individual nem sinal de fraqueza, mas uma resposta a um conjunto de pressões próprias desse período. O mês de dezembro concentra exigências que se acumulam ao longo do ano. No trabalho, há metas a fechar, prazos a cumprir e avaliações a enfrentar. Na vida pessoal, surgem compromissos familiares, encontros sociais, expectativas de convivência harmoniosa e a ideia de que é preciso “celebrar”. A tudo isso se somam as comparações inevitáveis, muitas vezes alimentadas pelas redes sociais, onde a felicidade parece obri...
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