Vivemos em tempos em que um simples movimento de dedo pode abrir ou encerrar a possibilidade de um encontro. Basta deslizar para a direita ou para a esquerda. Essa facilidade — ao mesmo tempo fascinante e inquietante — espelha um novo modo de se relacionar: mais rápido, mais leve, aparentemente mais livre e, paradoxalmente, mais solitário. Não se trata apenas do Tinder ou de outros aplicativos de encontro. Eles são o sintoma mais visível de algo mais profundo: uma transformação na forma como o amor, o desejo e os vínculos vêm sendo vividos na contemporaneidade. O que está em jogo é uma nova lógica relacional, marcada pela descartabilidade, pela ansiedade da escolha e pela idealização de um encontro perfeito que talvez nunca se concretize. Zygmunt Bauman descreveu esse cenário como a era da modernidade líquida — uma fase histórica em que nada é feito para durar e tudo precisa ser flexível, ajustável, facilmente substituível. As relações afetivas não escapam dessa lógica. Ao contrário: t...
Há uma pergunta que ressurge com frequência nos consultórios e nas conversas cotidianas: um relacionamento pode existir sem diálogo? A resposta, como quase tudo que diz respeito à experiência humana, não é simples — mas a psicanálise nos oferece ferramentas preciosas para pensá-la com a seriedade que ela merece. Sigmund Freud já nos ensinava que o sujeito não existe no vácuo. Nos constituímos na relação com o outro, atravessados pelo desejo, pelo conflito e pelo reconhecimento. Isso significa que mesmo quando não falamos, algo está sendo comunicado — sintomas, silêncios, atos esquecidos. O silêncio, portanto, não é ausência de linguagem; é uma linguagem em si. O problema é que, sem palavras, essa linguagem tende a falar apenas de sofrimento. Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, nos oferece uma imagem bonita e precisa: o amadurecimento emocional depende de um ambiente suficientemente bom, onde possamos existir diante do outro sem nos sentir ameaçados ou apagados. O di...