Reduzir a psicanálise a uma prática de autoconhecimento é, no mínimo, perder de vista a radicalidade de sua proposta. Desde Sigmund Freud, a experiência analítica nunca se limitou a “saber mais sobre si mesmo” — ela visa produzir transformações profundas na forma como o sujeito vive, sofre e se relaciona. O autoconhecimento, nesse contexto, é mais um efeito colateral do que a finalidade última. A psicanálise não se organiza em torno de uma consciência que se amplia progressivamente, mas em torno de um inconsciente que insiste, que retorna e que precisa ser simbolizado. Conhecer-se, aqui, não é acumular informações sobre si, mas suportar o encontro com aquilo que, em nós, escapa ao nosso próprio controle. Freud já dizia que o sujeito não é senhor em sua própria casa. Essa afirmação desloca completamente a ideia de autoconhecimento como domínio racional de si mesmo. O inconsciente não se revela como um conteúdo pronto à espera de ser descoberto — ele se constrói na relação analítica. A c...
A palavra ansiedade tem origem no latim anxietas, derivada de angere — “apertar”, “sufocar”, “estrangular”. A própria etimologia já oferece uma pista importante: a ansiedade é, antes de tudo, uma experiência de constrição, de aperto interno, como se algo no corpo ou na mente estivesse excessivamente tensionado. No campo da psicologia e da psicanálise, ela não é compreendida como um sintoma isolado, mas como um fenômeno complexo que atravessa o sujeito em sua relação com o mundo, com o outro e consigo mesmo. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que os transtornos de ansiedade estão entre os mais prevalentes no mundo, afetando centenas de milhões de pessoas — e, de maneira crescente, também crianças e adolescentes. Esse dado não deve apenas alarmar: deve, sobretudo, convidar à compreensão do que está em jogo quando a ansiedade se instala desde os primeiros anos de vida. Na infância, a ansiedade não pode ser pensada como uma versão “menor” da ansiedade adulta. Ela possui lógica ...