A cada ano, quando a Páscoa se aproxima, somos convidados a revisitar uma das narrativas mais potentes da experiência humana: a passagem . Na tradição judaica, a Pessach , palavra hebraica que evoca precisamente a ideia de “ passar por cima ” ou “ poupar ”, referindo-se ao anjo que poupou os primogênitos hebreus, rememora a saída do povo do Egito: não apenas um deslocamento geográfico, mas uma travessia simbólica da servidão em direção à possibilidade de existir com mais liberdade. Na tradição cristã, a Páscoa celebra a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, evento que a teologia cristã primitiva compreendeu como cumprimento e releitura da própria Pessach judaica — daí a palavra “ Páscoa ” derivar do aramaico pascha , transliteração do hebraico pesach . Em ambas as tradições, há um fio comum: a transformação que se dá através da dor e da espera. Sob o olhar da psicanálise, essas narrativas não são apenas eventos históricos ou dogmas religiosos, mas verdadeiras metáforas do func...
“ Eu sei que não faz sentido pensar assim, mas não consigo parar. ” A frase, dita com frequência nos consultórios e nos encontros cotidianos, revela algo fundamental sobre a experiência humana: nem todo pensamento é aliado. Há ideias que insistem, retornam, se impõem e, pouco a pouco, produzem sofrimento. A psicanálise, desde Freud, nos convida a suspeitar da aparente transparência do pensar. Nem sempre pensamos o que queremos; muitas vezes, somos pensados por aquilo que nos atravessa. Freud já indicava que o eu não é senhor em sua própria casa. Parte significativa da nossa vida psíquica opera fora do campo da consciência e o que aparece como “ pensamento negativo ” pode ser, na verdade, o retorno de algo não elaborado: uma tentativa do psiquismo de dar forma a experiências que não encontraram simbolização suficiente. Pensamentos repetitivos, autodepreciativos ou catastróficos não são ruídos aleatórios. São sinais de que algo pede escuta. Wilfred Bion aprofundou essa compreensão ao pro...