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Mais que autoconhecimento: a psicanálise como experiência de cura

Há uma cena que se repete nos consultórios de psicanálise ao redor do mundo: alguém se deita ou se senta diante de um analista e começa a falar. Parece simples. Mas o que acontece a partir daí não tem nada de simples e tampouco se resume ao que a maioria das pessoas imagina quando pensa em psicanálise. Não é uma conversa para “se conhecer melhor”. É algo mais profundo, mais exigente e, em muitos casos, mais transformador do que qualquer outra experiência que uma pessoa já teve. A fala que transforma A psicanálise nasce de uma aposta radical: a de que a palavra tem poder de cura. Não a palavra como informação, como conselho ou como diagnóstico, mas a palavra como experiência. Quando alguém fala em análise, não está apenas descrevendo o que sente. Está, muitas vezes pela primeira vez, dando forma a algo que existia apenas como dor difusa, como angústia sem nome, como comportamento repetido sem compreensão. A fala, nesse contexto, não descreve a experiência, ela a constitui. Freud perceb...
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Psicanálise não é só autoconhecimento

Reduzir a psicanálise a uma simples busca por autoconhecimento é perder de vista a profundidade de sua proposta. Desde Sigmund Freud, a experiência analítica nunca se limitou a “saber mais sobre si mesmo”. Seu verdadeiro objetivo é produzir transformações profundas na forma como vivemos, sofremos e nos relacionamos. Nesse contexto, o autoconhecimento é mais um efeito colateral do que a finalidade última. A psicanálise não gira em torno de uma consciência que se amplia progressivamente, mas de um inconsciente que insiste, retorna e precisa ser compreendido e simbolizado. Conhecer-se, aqui, não é acumular informações sobre si, mas ter a coragem de encarar aquilo que, dentro de nós, escapa ao nosso próprio controle. Freud já dizia que “o eu não é senhor em sua própria casa”. Essa afirmação desconstrói a ideia de autoconhecimento como um domínio racional sobre si mesmo. O inconsciente não é um baú de memórias prontas esperando para ser descoberto; ele se revela e se constrói na relação com...

Ansiedade na infância: o que o sofrimento tenta dizer

A palavra ansiedade tem origem no latim anxietas, derivada de angere — “apertar”, “sufocar”, “estrangular”. A própria etimologia já oferece uma pista importante: a ansiedade é, antes de tudo, uma experiência de constrição, de aperto interno, como se algo no corpo ou na mente estivesse excessivamente tensionado. No campo da psicologia e da psicanálise, ela não é compreendida como um sintoma isolado, mas como um fenômeno complexo que atravessa o sujeito em sua relação com o mundo, com o outro e consigo mesmo. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que os transtornos de ansiedade estão entre os mais prevalentes no mundo, afetando centenas de milhões de pessoas — e, de maneira crescente, também crianças e adolescentes. Esse dado não deve apenas alarmar: deve, sobretudo, convidar à compreensão do que está em jogo quando a ansiedade se instala desde os primeiros anos de vida. Na infância, a ansiedade não pode ser pensada como uma versão “menor” da ansiedade adulta. Ela possui lógica ...

O tempo que não temos: ansiedade e pressa na vida contemporânea

  Vivemos em um tempo em que a pressa deixou de ser circunstância para se tornar modo de existência. Tudo pede resposta imediata: mensagens, decisões, posicionamentos, sentimentos. Há uma expectativa silenciosa de que estejamos sempre disponíveis, sempre prontos, sempre funcionando. Nesse cenário, a ansiedade aparece, muitas vezes, como um problema a ser eliminado , quando talvez seja mais preciso escutá-la como linguagem de um tempo que já não tolera o intervalo. No cotidiano, a ansiedade costuma ser nomeada como excesso: excesso de pensamento, de preocupação, de antecipação. Mas, do ponto de vista psicanalítico, ela também pode ser compreendida como sinal — um sinal de que algo insiste sem encontrar forma de simbolização. Não é apenas o medo do que pode acontecer, mas a dificuldade de sustentar o não saber, o inacabado, o que ainda não tem nome. Em um mundo que exige clareza e rapidez, o sujeito se vê pressionado a responder antes mesmo de poder elaborar. A pressa, nesse sentido,...

“Meta dos pés”: quando o corpo é convocado a fazer o que a alma não consegue

Quem conhece o interior do Agreste sabe que, por aqui, ninguém para enquanto há o que fazer. A lida começa cedo, o sol ainda não subiu, e já há alguém de pé — cuidando do gado, abrindo o comércio, tirando o leite que vai virar o queijo que vai sustentar a família. É uma cultura do movimento, da persistência, do corpo que não cede. Um corpo que aprendeu, ao longo de gerações, que parar tem um custo alto — e que seguir em frente, mesmo quando dói, é quase uma forma de honrar os que vieram antes.   É dentro desse mundo, então, que a frase de um pai ganha todo o seu peso. Ao ver o filho deitado, tomado pela apatia, ele diz com aquela mistura de afeto e impotência que só os pais conhecem: “ Meu filho, meta dos pés. ” Não é apenas um incentivo ao movimento. É uma tentativa — ainda que sem palavras técnicas para isso — de devolver ao filho um lugar no mundo; de chamar de volta alguém que, de cima da cama, parece estar se afastando silenciosamente da própria vida — e que talvez nem saiba,...

Amor em tempos de deslize: vínculos frágeis e o mal-estar no encontro

Vivemos em tempos em que um simples movimento de dedo pode abrir ou encerrar a possibilidade de um encontro. Basta deslizar para a direita ou para a esquerda. Essa facilidade — ao mesmo tempo fascinante e inquietante — espelha um novo modo de se relacionar: mais rápido, mais leve, aparentemente mais livre e, paradoxalmente, mais solitário. Não se trata apenas do Tinder ou de outros aplicativos de encontro. Eles são o sintoma mais visível de algo mais profundo: uma transformação na forma como o amor, o desejo e os vínculos vêm sendo vividos na contemporaneidade. O que está em jogo é uma nova lógica relacional, marcada pela descartabilidade, pela ansiedade da escolha e pela idealização de um encontro perfeito que talvez nunca se concretize. Zygmunt Bauman descreveu esse cenário como a era da modernidade líquida — uma fase histórica em que nada é feito para durar e tudo precisa ser flexível, ajustável, facilmente substituível. As relações afetivas não escapam dessa lógica. Ao contrário: t...

O diálogo como ato de amor: o que a psicanálise nos ensina sobre o silêncio nos relacionamentos

  Há uma pergunta que ressurge com frequência nos consultórios e nas conversas cotidianas: um relacionamento pode existir sem diálogo? A resposta, como quase tudo que diz respeito à experiência humana, não é simples — mas a psicanálise nos oferece ferramentas preciosas para pensá-la com a seriedade que ela merece. Sigmund Freud já nos ensinava que o sujeito não existe no vácuo. Nos constituímos na relação com o outro, atravessados pelo desejo, pelo conflito e pelo reconhecimento. Isso significa que mesmo quando não falamos, algo está sendo comunicado — sintomas, silêncios, atos esquecidos. O silêncio, portanto, não é ausência de linguagem; é uma linguagem em si. O problema é que, sem palavras, essa linguagem tende a falar apenas de sofrimento. Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, nos oferece uma imagem bonita e precisa: o amadurecimento emocional depende de um ambiente suficientemente bom, onde possamos existir diante do outro sem nos sentir ameaçados ou apagados. O di...
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