Há algo no Natal que escapa às luzes, às vitrines e ao calendário. Essa época do ano parece abrir fendas por onde retornam afetos antigos, desejos infantis e cenas que nunca desapareceram de fato — apenas se recolheram em silêncio. Freud nos ensinou que o inconsciente não conhece tempo: nele, o passado continua ativo, vivo, pulsante. Por isso, mesmo adultos que se dizem “desligados” das festas podem se ver tomados por uma saudade inexplicável, por um entusiasmo desmedido ou por uma tristeza que não sabem nomear. O Natal, com sua atmosfera carregada de símbolos, funciona como um disparador emocional que convoca a criança que um dia fomos — a criança que esperou, desejou, temeu, fantasiou. Para Freud, aquilo que retorna nas festas não é uma lembrança literal, mas um traço mnêmico : um resto afetivo que sobreviveu às transformações da vida adulta. Músicas, cheiros, rituais e encontros familiares atualizam esses traços e despertam emoções que pertencem a camadas profundas da psique. I...