Nunca estivemos tão conectados — e, paradoxalmente, tão sós. Mensagens chegam instantaneamente, imagens circulam sem cessar, estamos “presentes” em dezenas de espaços ao mesmo tempo. Ainda assim, cresce um sentimento difuso de vazio, de abandono silencioso, de desencontro consigo e com o outro. A solidão contemporânea não nasce mais da ausência física, mas muitas vezes do excesso de presenças superficiais. Estamos cercados de contatos, mas carentes de encontros.
A psicanálise ajuda a compreender que o ser humano não busca apenas companhia, mas reconhecimento psíquico. Desde Freud, sabemos que não basta estar com alguém: é preciso ser visto em sua singularidade. Quando isso falha, emerge um tipo de solidão que não é espacial, mas afetiva. Alguém pode estar rodeado de pessoas e, ainda assim, sentir-se profundamente só, pois não se sente escutado, desejado, nem verdadeiramente acolhido.
Winnicott nos ensinou que o amadurecimento emocional depende da experiência de um ambiente suficientemente bom, capaz de sustentar o sujeito em seus gestos mais espontâneos. Quando esse ambiente falha, o indivíduo aprende a existir através de máscaras, adaptando-se excessivamente às expectativas externas. Na hiperconectividade, essa adaptação se radicaliza: constrói-se uma versão editada de si, enquanto a vida emocional permanece desabrigada. É assim que muitos se sentem expostos, mas não íntimos; visíveis, mas não reconhecidos.
As redes prometem pertencimento, mas muitas vezes entregam comparação. O sujeito passa a medir seu valor pelo número de curtidas, visualizações ou comentários. A autoestima, que deveria se estruturar a partir de vínculos reais, desloca-se para métricas impessoais. Esse movimento produz uma forma silenciosa de sofrimento: quanto mais se busca validação externa, mais se perde o contato com aquilo que, de fato, sustenta o sentimento de existir.
Do ponto de vista kleiniano, poderíamos dizer que a solidão atual também carrega fantasias de rejeição e abandono primitivo. A ausência de resposta, o “vácuo” de uma mensagem não lida, o silêncio digital, podem reativar angústias arcaicas de exclusão. O sujeito adulto, tecnicamente autônomo, reage emocionalmente como uma criança diante da ameaça de não ser amado. O sofrimento, assim, não está no celular, mas nas camadas mais profundas da vida psíquica.
Bion nos ensinou que pensar nasce da experiência emocional contida e elaborada. Quando tudo precisa ser imediatamente dito, postado, mostrado, o espaço interno para metabolizar afetos se empobrece. A solidão também surge quando já não sabemos o que fazer com nossas próprias emoções sem a mediação do olhar do outro. Fica difícil suportar o silêncio, o vazio, a espera — elementos essenciais da vida psíquica.
A grande ironia da hiperconectividade é que ela promete abolir a solidão, mas frequentemente a intensifica. Não porque a tecnologia seja, em si, destrutiva, mas porque ela pode funcionar como defesa contra o encontro verdadeiro. Conectar-se é mais fácil do que se vincular. Mostrar-se é mais simples do que se revelar. E assim, muitas vezes, troca-se a profundidade da relação pelo alívio momentâneo da distração.
Talvez o desafio contemporâneo não seja desconectar-se do mundo, mas reconectar-se de si. Recuperar espaços de silêncio, de escuta interna, de relações menos performáticas e mais verdadeiras. A solidão não se cura com mais estímulos, mas com mais presença — presença real, afetiva, imperfeita, humana. Aquela que não exige espetáculo, apenas encontro.
No fundo, o que cura a solidão não é a quantidade de pessoas ao redor, mas a qualidade do vínculo que se constrói — com o outro e consigo mesmo. E isso, nenhuma tecnologia pode substituir.
Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe

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