A cada ano, quando a Páscoa se aproxima, somos convidados a revisitar uma das narrativas mais potentes da experiência humana: a passagem . Na tradição judaica, a Pessach , palavra hebraica que evoca precisamente a ideia de “ passar por cima ” ou “ poupar ”, referindo-se ao anjo que poupou os primogênitos hebreus, rememora a saída do povo do Egito: não apenas um deslocamento geográfico, mas uma travessia simbólica da servidão em direção à possibilidade de existir com mais liberdade. Na tradição cristã, a Páscoa celebra a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, evento que a teologia cristã primitiva compreendeu como cumprimento e releitura da própria Pessach judaica — daí a palavra “ Páscoa ” derivar do aramaico pascha , transliteração do hebraico pesach . Em ambas as tradições, há um fio comum: a transformação que se dá através da dor e da espera. Sob o olhar da psicanálise, essas narrativas não são apenas eventos históricos ou dogmas religiosos, mas verdadeiras metáforas do func...