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Mostrando postagens de 2026

Por trás do palco: psicanálise, trauma e a criança que Michael Jackson carregou

Acabo de assistir o filme Michael, dirigido por Antoine Fuqua e protagonizado por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor, cuja semelhança física e performática impressiona, este longa poderia facilmente render-se à lógica das cinebiografias convencionais: o menino pobre que venceu, o talento que conquistou o mundo, a fama como redenção. Mas há algo mais inquieto e mais honesto atravessando a obra. Por baixo do brilho dos palcos, dos figurinos e das coreografias que definiram uma época, o filme sugere uma pergunta diferente e mais perturbadora: o que aconteceu com a criança que precisou crescer rápido demais? É essa pergunta que confere a este filme uma dimensão psicanalítica genuína, na minha opinião. Antes do ícone, havia um menino. E esse menino foi submetido, desde muito cedo, a uma pressão que não lhe pertencia: a pressão de performar, de corresponder, de ser perfeito para que o desejo dos outros (do pai, do mercado, do público) pudesse ser satisfeito. Winnicott nos ensinou que o dese...

A vida que não para: sobre o cansaço que ninguém vê e o descanso que ninguém ensina

Existe um tipo de cansaço que não aparece nos exames. Não tem febre, não tem inflamação, não tem nome clínico imediato. É aquele cansaço que chega depois de um dia em que “não aconteceu nada”, mesmo assim o corpo pesa, a cabeça não para, e a única coisa que se quer é que o mundo faça silêncio por um momento. Um cansaço que, quando tentamos explicar, encontra de volta a pergunta desconcertante: “Mas você fez o quê hoje?”  Vivemos num tempo em que o descanso precisou aprender a se justificar. Não é apenas que trabalhamos demais, embora trabalhemos. É que aprendemos a habitar uma relação com o tempo em que parar passou a exigir razão suficiente. O descanso tornou-se um prêmio, não uma necessidade. Algo que se conquista depois da produtividade, não algo que a antecede e a sustenta. E quando o corpo para antes que a permissão interna chegue, o que surge não é descanso, é culpa. A psicanálise oferece uma lente precisa para esse fenômeno. Freud já observava que o eu (o ego) não é apenas u...

Mais que autoconhecimento: a psicanálise como experiência de cura

Há uma cena que se repete nos consultórios de psicanálise ao redor do mundo: alguém se deita ou se senta diante de um analista e começa a falar. Parece simples. Mas o que acontece a partir daí não tem nada de simples e tampouco se resume ao que a maioria das pessoas imagina quando pensa em psicanálise. Não é uma conversa para “se conhecer melhor”. É algo mais profundo, mais exigente e, em muitos casos, mais transformador do que qualquer outra experiência que uma pessoa já teve. A fala que transforma A psicanálise nasce de uma aposta radical: a de que a palavra tem poder de cura. Não a palavra como informação, como conselho ou como diagnóstico, mas a palavra como experiência. Quando alguém fala em análise, não está apenas descrevendo o que sente. Está, muitas vezes pela primeira vez, dando forma a algo que existia apenas como dor difusa, como angústia sem nome, como comportamento repetido sem compreensão. A fala, nesse contexto, não descreve a experiência, ela a constitui. Freud perceb...

Psicanálise não é só autoconhecimento

Reduzir a psicanálise a uma simples busca por autoconhecimento é perder de vista a profundidade de sua proposta. Desde Sigmund Freud, a experiência analítica nunca se limitou a “saber mais sobre si mesmo”. Seu verdadeiro objetivo é produzir transformações profundas na forma como vivemos, sofremos e nos relacionamos. Nesse contexto, o autoconhecimento é mais um efeito colateral do que a finalidade última. A psicanálise não gira em torno de uma consciência que se amplia progressivamente, mas de um inconsciente que insiste, retorna e precisa ser compreendido e simbolizado. Conhecer-se, aqui, não é acumular informações sobre si, mas ter a coragem de encarar aquilo que, dentro de nós, escapa ao nosso próprio controle. Freud já dizia que “o eu não é senhor em sua própria casa”. Essa afirmação desconstrói a ideia de autoconhecimento como um domínio racional sobre si mesmo. O inconsciente não é um baú de memórias prontas esperando para ser descoberto; ele se revela e se constrói na relação com...

Ansiedade na infância: o que o sofrimento tenta dizer

A palavra ansiedade tem origem no latim anxietas, derivada de angere — “apertar”, “sufocar”, “estrangular”. A própria etimologia já oferece uma pista importante: a ansiedade é, antes de tudo, uma experiência de constrição, de aperto interno, como se algo no corpo ou na mente estivesse excessivamente tensionado. No campo da psicologia e da psicanálise, ela não é compreendida como um sintoma isolado, mas como um fenômeno complexo que atravessa o sujeito em sua relação com o mundo, com o outro e consigo mesmo. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que os transtornos de ansiedade estão entre os mais prevalentes no mundo, afetando centenas de milhões de pessoas — e, de maneira crescente, também crianças e adolescentes. Esse dado não deve apenas alarmar: deve, sobretudo, convidar à compreensão do que está em jogo quando a ansiedade se instala desde os primeiros anos de vida. Na infância, a ansiedade não pode ser pensada como uma versão “menor” da ansiedade adulta. Ela possui lógica ...

O tempo que não temos: ansiedade e pressa na vida contemporânea

  Vivemos em um tempo em que a pressa deixou de ser circunstância para se tornar modo de existência. Tudo pede resposta imediata: mensagens, decisões, posicionamentos, sentimentos. Há uma expectativa silenciosa de que estejamos sempre disponíveis, sempre prontos, sempre funcionando. Nesse cenário, a ansiedade aparece, muitas vezes, como um problema a ser eliminado , quando talvez seja mais preciso escutá-la como linguagem de um tempo que já não tolera o intervalo. No cotidiano, a ansiedade costuma ser nomeada como excesso: excesso de pensamento, de preocupação, de antecipação. Mas, do ponto de vista psicanalítico, ela também pode ser compreendida como sinal — um sinal de que algo insiste sem encontrar forma de simbolização. Não é apenas o medo do que pode acontecer, mas a dificuldade de sustentar o não saber, o inacabado, o que ainda não tem nome. Em um mundo que exige clareza e rapidez, o sujeito se vê pressionado a responder antes mesmo de poder elaborar. A pressa, nesse sentido,...

“Meta dos pés”: quando o corpo é convocado a fazer o que a alma não consegue

Quem conhece o interior do Agreste sabe que, por aqui, ninguém para enquanto há o que fazer. A lida começa cedo, o sol ainda não subiu, e já há alguém de pé — cuidando do gado, abrindo o comércio, tirando o leite que vai virar o queijo que vai sustentar a família. É uma cultura do movimento, da persistência, do corpo que não cede. Um corpo que aprendeu, ao longo de gerações, que parar tem um custo alto — e que seguir em frente, mesmo quando dói, é quase uma forma de honrar os que vieram antes.   É dentro desse mundo, então, que a frase de um pai ganha todo o seu peso. Ao ver o filho deitado, tomado pela apatia, ele diz com aquela mistura de afeto e impotência que só os pais conhecem: “ Meu filho, meta dos pés. ” Não é apenas um incentivo ao movimento. É uma tentativa — ainda que sem palavras técnicas para isso — de devolver ao filho um lugar no mundo; de chamar de volta alguém que, de cima da cama, parece estar se afastando silenciosamente da própria vida — e que talvez nem saiba,...

Amor em tempos de deslize: vínculos frágeis e o mal-estar no encontro

Vivemos em tempos em que um simples movimento de dedo pode abrir ou encerrar a possibilidade de um encontro. Basta deslizar para a direita ou para a esquerda. Essa facilidade — ao mesmo tempo fascinante e inquietante — espelha um novo modo de se relacionar: mais rápido, mais leve, aparentemente mais livre e, paradoxalmente, mais solitário. Não se trata apenas do Tinder ou de outros aplicativos de encontro. Eles são o sintoma mais visível de algo mais profundo: uma transformação na forma como o amor, o desejo e os vínculos vêm sendo vividos na contemporaneidade. O que está em jogo é uma nova lógica relacional, marcada pela descartabilidade, pela ansiedade da escolha e pela idealização de um encontro perfeito que talvez nunca se concretize. Zygmunt Bauman descreveu esse cenário como a era da modernidade líquida — uma fase histórica em que nada é feito para durar e tudo precisa ser flexível, ajustável, facilmente substituível. As relações afetivas não escapam dessa lógica. Ao contrário: t...

O diálogo como ato de amor: o que a psicanálise nos ensina sobre o silêncio nos relacionamentos

  Há uma pergunta que ressurge com frequência nos consultórios e nas conversas cotidianas: um relacionamento pode existir sem diálogo? A resposta, como quase tudo que diz respeito à experiência humana, não é simples — mas a psicanálise nos oferece ferramentas preciosas para pensá-la com a seriedade que ela merece. Sigmund Freud já nos ensinava que o sujeito não existe no vácuo. Nos constituímos na relação com o outro, atravessados pelo desejo, pelo conflito e pelo reconhecimento. Isso significa que mesmo quando não falamos, algo está sendo comunicado — sintomas, silêncios, atos esquecidos. O silêncio, portanto, não é ausência de linguagem; é uma linguagem em si. O problema é que, sem palavras, essa linguagem tende a falar apenas de sofrimento. Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, nos oferece uma imagem bonita e precisa: o amadurecimento emocional depende de um ambiente suficientemente bom, onde possamos existir diante do outro sem nos sentir ameaçados ou apagados. O di...

A travessia que nos faz: páscoa, psicanálise e o tempo do deserto

A cada ano, quando a Páscoa se aproxima, somos convidados a revisitar uma das narrativas mais potentes da experiência humana: a passagem . Na tradição judaica, a Pessach ,  palavra hebraica que evoca precisamente a ideia de “ passar por cima ” ou “ poupar ”, referindo-se ao anjo que poupou os primogênitos hebreus, rememora a saída do povo do Egito: não apenas um deslocamento geográfico, mas uma travessia simbólica da servidão em direção à possibilidade de existir com mais liberdade. Na tradição cristã, a Páscoa celebra a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, evento que a teologia cristã primitiva compreendeu como cumprimento e releitura da própria Pessach judaica — daí a palavra “ Páscoa ” derivar do aramaico pascha , transliteração do hebraico pesach . Em ambas as tradições, há um fio comum: a transformação que se dá através da dor e da espera. Sob o olhar da psicanálise, essas narrativas não são apenas eventos históricos ou dogmas religiosos, mas verdadeiras metáforas do func...

Quando o pensamento adoece: uma escuta psicanalítica sobre o que nos habita

“ Eu sei que não faz sentido pensar assim, mas não consigo parar. ” A frase, dita com frequência nos consultórios e nos encontros cotidianos, revela algo fundamental sobre a experiência humana: nem todo pensamento é aliado. Há ideias que insistem, retornam, se impõem e, pouco a pouco, produzem sofrimento. A psicanálise, desde Freud, nos convida a suspeitar da aparente transparência do pensar. Nem sempre pensamos o que queremos; muitas vezes, somos pensados por aquilo que nos atravessa. Freud já indicava que o eu não é senhor em sua própria casa. Parte significativa da nossa vida psíquica opera fora do campo da consciência e o que aparece como “ pensamento negativo ” pode ser, na verdade, o retorno de algo não elaborado: uma tentativa do psiquismo de dar forma a experiências que não encontraram simbolização suficiente. Pensamentos repetitivos, autodepreciativos ou catastróficos não são ruídos aleatórios. São sinais de que algo pede escuta. Wilfred Bion aprofundou essa compreensão ao pro...

Entre rumores e relações: um ensaio sobre fofoca.

A fofoca costuma aparecer, no senso comum, como um vício menor da vida cotidiana: algo superficial, fútil ou moralmente condenável, próprio de pessoas ociosas ou malévolas. Entretanto, quando observada com mais atenção e com as ferramentas que as ciências humanas nos oferecem, ela revela dimensões surpreendentemente profundas da experiência humana. A psicanálise, a filosofia e a sociologia convergem ao mostrar que falar da vida alheia não é apenas uma distração social passageira, mas um fenômeno que envolve linguagem, desejo, poder, identidade e pertencimento. Longe de ser um simples ruído de fundo da convivência, a fofoca pode ser compreendida como um espelho discreto da vida psíquica e das estruturas que organizam a vida coletiva. Nela se refletem, muitas vezes sem que nos demos conta, os traços mais íntimos de quem somos e do tipo de mundo que habitamos.   Do ponto de vista da psicanálise, desde Sigmund Freud aprendemos que a fala nunca é completamente inocente. As palavras ...
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