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A travessia que nos faz: páscoa, psicanálise e o tempo do deserto

A cada ano, quando a Páscoa se aproxima, somos convidados a revisitar uma das narrativas mais potentes da experiência humana:
a passagem. Na tradição judaica, a Pessach,  palavra hebraica que evoca precisamente a ideia de “passar por cima” ou “poupar”, referindo-se ao anjo que poupou os primogênitos hebreus, rememora a saída do povo do Egito: não apenas um deslocamento geográfico, mas uma travessia simbólica da servidão em direção à possibilidade de existir com mais liberdade. Na tradição cristã, a Páscoa celebra a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, evento que a teologia cristã primitiva compreendeu como cumprimento e releitura da própria Pessach judaica — daí a palavra “Páscoa” derivar do aramaico pascha, transliteração do hebraico pesach. Em ambas as tradições, há um fio comum: a transformação que se dá através da dor e da espera.

Sob o olhar da psicanálise, essas narrativas não são apenas eventos históricos ou dogmas religiosos, mas verdadeiras metáforas do funcionamento psíquico. Freud, ele próprio profundamente marcado pela tradição judaica, como demonstra sua obra tardia Moisés e o Monoteísmo, já apontava que o sofrimento psíquico não se dissolve pela negação, mas pela travessia. Há, portanto, algo de pascal no próprio processo analítico: atravessar aquilo que aprisiona, nomear o indizível, sustentar o contato com a falta. Não se trata de eliminar o conflito, mas de permitir que ele encontre outras formas de inscrição na vida do sujeito.

Na experiência clínica, é possível reconhecer quantas vezes alguém permanece no “Egito” de sua própria história — repetindo padrões, mantendo vínculos que o aprisionam, sustentando culpas que já não lhe pertencem. A saída, no entanto, não é simples nem rápida. O próprio relato bíblico é eloquente nesse ponto: o povo hebreu, após a travessia do Mar Vermelho, passa quarenta anos no deserto, tempo que a tradição interpreta não como punição, mas como necessidade de uma transformação interior que precede a chegada à terra prometida. Assim também na clínica, a travessia implica incerteza, angústia e, muitas vezes, a tentação de retornar ao conhecido, ainda que doloroso. A liberdade não é um dado imediato, mas uma construção subjetiva que se conquista lentamente.

A Páscoa cristã introduz um elemento ainda mais radical: a possibilidade de ressignificação da própria morte. A teologia cristã, sobretudo em Paulo de Tarso, não contorna a morte de Cristo — ela a afirma em sua crueza — mas sustenta que ela não é a palavra final. Esse movimento, que a tradição chama de Kênosis (o esvaziamento de si como condição do renascimento), ressoa de maneira surpreendente com o que Winnicott descreveu como a capacidade de viver criativamente mesmo diante das falhas e rupturas. Renascer, nesse contexto, não significa apagar o sofrimento, mas integrá-lo de modo que ele não paralise a vida — que a ferida se torne, aos poucos, cicatriz e não abismo.

A ciência da religião, desde Mircea Eliade, nos ajuda a compreender que esses rituais persistem porque atualizam o illud tempus (o tempo sagrado da origem) tornando o passado fundante novamente presente e eficaz. Não se trata de simples comemoração, mas de uma re-atualização que reorganiza o caos, dá forma à dor e oferece narrativas que possibilitam ao sujeito simbolizar suas experiências. Não é por acaso que, mesmo em contextos secularizados, a ideia de recomeço continue a mobilizar afetos e desejos tão profundos. A Páscoa, nesse sentido, ultrapassa o campo estritamente religioso e se inscreve como uma experiência antropológica universal.

Talvez, então, a pergunta que a Páscoa nos convoca a fazer não seja apenas sobre o que celebramos, mas sobre o que ainda precisa ser atravessado em nós. De quais prisões ainda não saímos? Quais lutos permanecem não elaborados? O que, em nossa história, pede passagem? A psicanálise, assim como a experiência religiosa, não oferece respostas prontas, mas sustenta o espaço onde essas perguntas podem existir e onde, às vezes, apenas existir já é o começo da travessia.

No sertão, onde a vida tantas vezes se impõe em sua dureza, falar de Páscoa é também falar de resistência. É reconhecer que, mesmo em meio à escassez, há algo que insiste em brotar. Talvez seja essa a dimensão mais profunda da travessia pascal: a de que, apesar de tudo, o sujeito pode encontrar modos de viver menos aprisionados e mais verdadeiros. E isso, em última instância, é também uma forma de renascimento.

Daniel Lima | Psicanalista, filósofo e teólogo | @daniellima.pe
 
 
 

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