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Mostrando postagens de dezembro, 2025

Dezembrite: quando o fim do ano pesa por dentro

A chamada dezembrite é um termo popular que passou a nomear um mal-estar bastante reconhecível para muitas pessoas: cansaço extremo, irritabilidade, tristeza difusa, ansiedade e uma sensação de sobrecarga emocional que costuma se intensificar em dezembro. Não se trata de um diagnóstico clínico, mas de uma palavra que ajuda a dar forma a uma experiência comum. Ao nomear algo que antes era vivido de maneira confusa, o termo permite reconhecer que o sofrimento de fim de ano não é individual nem sinal de fraqueza, mas uma resposta a um conjunto de pressões próprias desse período. O mês de dezembro concentra exigências que se acumulam ao longo do ano. No trabalho, há metas a fechar, prazos a cumprir e avaliações a enfrentar. Na vida pessoal, surgem compromissos familiares, encontros sociais, expectativas de convivência harmoniosa e a ideia de que é preciso “celebrar”. A tudo isso se somam as comparações inevitáveis, muitas vezes alimentadas pelas redes sociais, onde a felicidade parece obri...

Consumismo natalino e o vazio: por que presentes não preenchem a falta?

  O Natal se tornou, ao longo do tempo, um dos momentos mais intensos de convocação ao consumo. Vitrines iluminadas, propagandas emotivas e discursos sobre “merecimento” constroem a ideia de que a felicidade pode ser adquirida, embrulhada e entregue. O presente passa a ocupar um lugar simbólico central: ele promete reparar ausências, restaurar vínculos e produzir alegria imediata. No entanto, para muitas pessoas, o período termina com um sentimento difuso de frustração ou esgotamento. Algo não se completa. A psicanálise ajuda a compreender esse mal-estar ao mostrar que o vazio que se tenta preencher com objetos não é um erro da vida moderna, mas uma condição estrutural da experiência humana. Do ponto de vista psíquico, a falta não é algo que possa ser eliminado. É justamente a partir dela que o desejo se constitui. Desejamos porque não somos completos, porque algo nos escapa. Quando o consumo promete preencher essa falta, cria-se uma ilusão potente, porém frágil. O objeto comprado ...

A criança que fomos e o natal que inventamos: retornos do inconsciente

Há algo no Natal que escapa às luzes, às vitrines e ao calendário. Essa época do ano parece abrir fendas por onde retornam afetos antigos, desejos infantis e cenas que nunca desapareceram de fato — apenas se recolheram em silêncio. Freud nos ensinou que o inconsciente não conhece tempo: nele, o passado continua ativo, vivo, pulsante. Por isso, mesmo adultos que se dizem “desligados” das festas podem se ver tomados por uma saudade inexplicável, por um entusiasmo desmedido ou por uma tristeza que não sabem nomear. O Natal, com sua atmosfera carregada de símbolos, funciona como um disparador emocional que convoca a criança que um dia fomos — a criança que esperou, desejou, temeu, fantasiou. Para Freud, aquilo que retorna nas festas não é uma lembrança literal, mas um  traço mnêmico : um resto afetivo que sobreviveu às transformações da vida adulta. Músicas, cheiros, rituais e encontros familiares atualizam esses traços e despertam emoções que pertencem a camadas profundas da psique. I...

A solidão em tempos de hiperconectividade

Nunca estivemos tão conectados — e, paradoxalmente, tão sós. Mensagens chegam instantaneamente, imagens circulam sem cessar, estamos “presentes” em dezenas de espaços ao mesmo tempo. Ainda assim, cresce um sentimento difuso de vazio, de abandono silencioso, de desencontro consigo e com o outro. A solidão contemporânea não nasce mais da ausência física, mas muitas vezes do excesso de presenças superficiais. Estamos cercados de contatos, mas carentes de encontros.   A psicanálise ajuda a compreender que o ser humano não busca apenas companhia, mas reconhecimento psíquico. Desde Freud, sabemos que não basta estar com alguém: é preciso ser visto em sua singularidade. Quando isso falha, emerge um tipo de solidão que não é espacial, mas afetiva. Alguém pode estar rodeado de pessoas e, ainda assim, sentir-se profundamente só, pois não se sente escutado, desejado, nem verdadeiramente acolhido.   Winnicott nos ensinou que o amadurecimento emocional depende da experiência de um ambiente...
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