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Mostrando postagens de maio, 2026

Por trás do palco: psicanálise, trauma e a criança que Michael Jackson carregou

Acabo de assistir o filme Michael, dirigido por Antoine Fuqua e protagonizado por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor, cuja semelhança física e performática impressiona, este longa poderia facilmente render-se à lógica das cinebiografias convencionais: o menino pobre que venceu, o talento que conquistou o mundo, a fama como redenção. Mas há algo mais inquieto e mais honesto atravessando a obra. Por baixo do brilho dos palcos, dos figurinos e das coreografias que definiram uma época, o filme sugere uma pergunta diferente e mais perturbadora: o que aconteceu com a criança que precisou crescer rápido demais? É essa pergunta que confere a este filme uma dimensão psicanalítica genuína, na minha opinião. Antes do ícone, havia um menino. E esse menino foi submetido, desde muito cedo, a uma pressão que não lhe pertencia: a pressão de performar, de corresponder, de ser perfeito para que o desejo dos outros (do pai, do mercado, do público) pudesse ser satisfeito. Winnicott nos ensinou que o dese...

A vida que não para: sobre o cansaço que ninguém vê e o descanso que ninguém ensina

Existe um tipo de cansaço que não aparece nos exames. Não tem febre, não tem inflamação, não tem nome clínico imediato. É aquele cansaço que chega depois de um dia em que “não aconteceu nada”, mesmo assim o corpo pesa, a cabeça não para, e a única coisa que se quer é que o mundo faça silêncio por um momento. Um cansaço que, quando tentamos explicar, encontra de volta a pergunta desconcertante: “Mas você fez o quê hoje?”  Vivemos num tempo em que o descanso precisou aprender a se justificar. Não é apenas que trabalhamos demais, embora trabalhemos. É que aprendemos a habitar uma relação com o tempo em que parar passou a exigir razão suficiente. O descanso tornou-se um prêmio, não uma necessidade. Algo que se conquista depois da produtividade, não algo que a antecede e a sustenta. E quando o corpo para antes que a permissão interna chegue, o que surge não é descanso, é culpa. A psicanálise oferece uma lente precisa para esse fenômeno. Freud já observava que o eu (o ego) não é apenas u...

Mais que autoconhecimento: a psicanálise como experiência de cura

Há uma cena que se repete nos consultórios de psicanálise ao redor do mundo: alguém se deita ou se senta diante de um analista e começa a falar. Parece simples. Mas o que acontece a partir daí não tem nada de simples e tampouco se resume ao que a maioria das pessoas imagina quando pensa em psicanálise. Não é uma conversa para “se conhecer melhor”. É algo mais profundo, mais exigente e, em muitos casos, mais transformador do que qualquer outra experiência que uma pessoa já teve. A fala que transforma A psicanálise nasce de uma aposta radical: a de que a palavra tem poder de cura. Não a palavra como informação, como conselho ou como diagnóstico, mas a palavra como experiência. Quando alguém fala em análise, não está apenas descrevendo o que sente. Está, muitas vezes pela primeira vez, dando forma a algo que existia apenas como dor difusa, como angústia sem nome, como comportamento repetido sem compreensão. A fala, nesse contexto, não descreve a experiência, ela a constitui. Freud perceb...

Psicanálise não é só autoconhecimento

Reduzir a psicanálise a uma simples busca por autoconhecimento é perder de vista a profundidade de sua proposta. Desde Sigmund Freud, a experiência analítica nunca se limitou a “saber mais sobre si mesmo”. Seu verdadeiro objetivo é produzir transformações profundas na forma como vivemos, sofremos e nos relacionamos. Nesse contexto, o autoconhecimento é mais um efeito colateral do que a finalidade última. A psicanálise não gira em torno de uma consciência que se amplia progressivamente, mas de um inconsciente que insiste, retorna e precisa ser compreendido e simbolizado. Conhecer-se, aqui, não é acumular informações sobre si, mas ter a coragem de encarar aquilo que, dentro de nós, escapa ao nosso próprio controle. Freud já dizia que “o eu não é senhor em sua própria casa”. Essa afirmação desconstrói a ideia de autoconhecimento como um domínio racional sobre si mesmo. O inconsciente não é um baú de memórias prontas esperando para ser descoberto; ele se revela e se constrói na relação com...
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