A palavra ansiedade tem origem no latim anxietas, derivada de angere — “apertar”, “sufocar”, “estrangular”. A própria etimologia já oferece uma pista importante: a ansiedade é, antes de tudo, uma experiência de constrição, de aperto interno, como se algo no corpo ou na mente estivesse excessivamente tensionado. No campo da psicologia e da psicanálise, ela não é compreendida como um sintoma isolado, mas como um fenômeno complexo que atravessa o sujeito em sua relação com o mundo, com o outro e consigo mesmo. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que os transtornos de ansiedade estão entre os mais prevalentes no mundo, afetando centenas de milhões de pessoas — e, de maneira crescente, também crianças e adolescentes. Esse dado não deve apenas alarmar: deve, sobretudo, convidar à compreensão do que está em jogo quando a ansiedade se instala desde os primeiros anos de vida.
Na infância, a ansiedade não pode ser pensada como uma versão “menor” da ansiedade adulta. Ela possui lógica própria, inseparável do processo de constituição psíquica. Diferentemente do adulto, a criança ainda está construindo sua capacidade de simbolizar, de nomear afetos, de distinguir o que vem de dentro e o que vem de fora. Por isso, a ansiedade infantil frequentemente se expressa de forma indireta: no corpo, nos comportamentos, nos medos aparentemente desproporcionais, nas dificuldades de separação, no sono, na alimentação. O que está em jogo não é apenas o conteúdo daquilo que angustia, mas a própria possibilidade de a criança conferir forma psíquica às suas experiências.
Do ponto de vista psicanalítico, a ansiedade não é um “erro” do funcionamento psíquico, mas um sinal — um modo de o sujeito, ainda em constituição, responder a algo que não consegue simbolizar plenamente. Desde Freud, compreendemos a ansiedade como uma espécie de alarme interno diante de um perigo, que pode ser tanto externo quanto interno. Na infância, esse alarme ganha contornos muito particulares, pois a criança ainda está construindo os recursos necessários para nomear, representar e elaborar suas experiências.
Se pensarmos com Melanie Klein, veremos que a ansiedade aparece muito cedo na vida psíquica, ligada às fantasias inconscientes e às primeiras relações com os objetos primários — sobretudo a mãe, ou quem ocupa essa função. Para Klein, o bebê não habita um mundo neutro, mas um mundo intensamente povoado por sentimentos de amor e ódio, capazes de gerar angústias profundas: o medo de perder o objeto amado, o medo de ser invadido por conteúdos internos percebidos como ameaçadores. O que os adultos frequentemente interpretam como “medo exagerado” pode ser, na verdade, a expressão de conflitos psíquicos bastante primitivos.
Donald Winnicott desloca o olhar da ansiedade como fenômeno exclusivamente interno para compreendê-la também em relação ao ambiente. Para ele, não há bebê sem ambiente: o modo como a criança experimenta o mundo depende profundamente da qualidade dos cuidados que recebe. Quando o ambiente falha de maneira significativa — seja por excesso, seja por ausência —, a criança pode vivenciar ansiedades ainda sem forma de palavra, que aparecem no corpo, no comportamento, no sono, na alimentação. A ansiedade, nesse sentido, é também um índice da qualidade da relação entre o sujeito e seu entorno.
Essa perspectiva se amplia com Wilfred Bion, para quem a criança precisa de um outro que a ajude a pensar suas emoções. O bebê experimenta estados emocionais brutos — sensações intensas e caóticas — que ainda não consegue organizar. É a função do cuidador, a chamada função continente, acolher essas experiências, metabolizá-las e devolvê-las de forma mais suportável. Quando essa função é insuficiente ou falha, a ansiedade se intensifica: aquilo que não pôde ser pensado retorna como angústia difusa, sem nome e sem contorno.
Importa, porém, não patologizar precipitadamente a ansiedade infantil. Sentir medo, insegurança, ciúme ou apreensão faz parte do processo de desenvolvimento. O problema não está na existência da ansiedade, mas em sua intensidade, em sua frequência e, sobretudo, na possibilidade — ou impossibilidade — de ela ser simbolizada. Uma criança que brinca, fala, desenha ou mesmo encena suas angústias está, de algum modo, tentando elaborá-las. Quando, ao contrário, a ansiedade paralisa, invade ou se cristaliza, ela sinaliza que algo não está encontrando vias de expressão.
Vivemos num tempo marcado por pressa, excesso de estímulos e, paradoxalmente, por uma crescente dificuldade de escuta. As crianças, inseridas nesse contexto, são frequentemente convocadas a se adaptar com rapidez, a performar bem, a não “dar trabalho”. Nesse cenário, a ansiedade pode se intensificar ainda mais, pois resta pouco espaço para que o sofrimento seja reconhecido em sua singularidade. A psicanálise propõe um gesto ético distinto: escutar a criança não apenas no que ela diz, mas também no que ela mostra, no que ela repete, no que ainda não consegue colocar em palavras.
Falar de ansiedade na infância, portanto, não é apenas falar de sintomas — é falar de relações, de linguagem, de tempo psíquico. É reconhecer que a criança não é um adulto em miniatura, mas um sujeito em processo, cuja maneira de sofrer e de se expressar precisa ser levada a sério. Mais do que eliminar a ansiedade, trata-se de criar condições para que ela possa ser pensada, compartilhada e transformada. Quando a angústia encontra escuta, ela deixa de ser apenas um peso e pode tornar-se, também, caminho de construção subjetiva.
Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe
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