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O tempo que não temos: ansiedade e pressa na vida contemporânea

 


Vivemos em um tempo em que a pressa deixou de ser circunstância para se tornar modo de existência. Tudo pede resposta imediata: mensagens, decisões, posicionamentos, sentimentos. Há uma expectativa silenciosa de que estejamos sempre disponíveis, sempre prontos, sempre funcionando. Nesse cenário, a ansiedade aparece, muitas vezes, como um problema a ser eliminado,quando talvez seja mais preciso escutá-la como linguagem de um tempo que já não tolera o intervalo.

No cotidiano, a ansiedade costuma ser nomeada como excesso: excesso de pensamento, de preocupação, de antecipação. Mas, do ponto de vista psicanalítico, ela também pode ser compreendida como sinal — um sinal de que algo insiste sem encontrar forma de simbolização. Não é apenas o medo do que pode acontecer, mas a dificuldade de sustentar o não saber, o inacabado, o que ainda não tem nome. Em um mundo que exige clareza e rapidez, o sujeito se vê pressionado a responder antes mesmo de poder elaborar.

A pressa, nesse sentido, não é só externa. Ela se instala por dentro. Torna-se uma urgência que empurra o sujeito para frente, impedindo-o de permanecer tempo suficiente em uma experiência. Sentir, pensar, elaborar, tudo isso requer tempo. Mas o tempo, hoje, é vivido como ameaça. Parar pode ser confundido com fracasso. Hesitar pode parecer fraqueza. E assim seguimos nos movendo, muitas vezes sem saber exatamente para onde.

Na clínica, é comum encontrar sujeitos que dizem “não consigo parar de pensar”, mas que, ao mesmo tempo, não conseguem sustentar um pensamento até o fim. Há uma circulação constante de ideias, cenários e preocupações, com pouca possibilidade de transformação psíquica, como se o pensamento girasse em falso. Isso nos convida a diferenciar pensar de ruminar: enquanto o primeiro implica elaboração, a segunda repete sem produzir sentido.

Aqui no interior de Pernambuco, onde a vida foi por muito tempo marcada por outros ritmos (mais lentos, mais ligados ao tempo da terra e da natureza), essa aceleração também chegou, ainda que de forma desigual. O celular na mão, as demandas que atravessam fronteiras, a comparação constante com outras vidas: tudo isso produz uma espécie de desencontro entre o tempo do mundo e o tempo do sujeito. E quando esses tempos não se articulam, o sofrimento encontra caminho.

Talvez a questão não seja como eliminar a ansiedade, mas como escutá-la. O que, em nós, está sendo apressado? O que não encontra tempo para se constituir? A psicanálise, ao contrário da lógica imediatista, aposta no tempo como condição de transformação, não apenas o tempo cronológico, mas o tempo vivido, experimentado, sustentado.

Em um mundo que nos convoca a responder rápido, talvez um dos gestos mais subversivos seja justamente não saber de imediato. Poder esperar, suportar a dúvida, dar tempo ao que ainda está se formando. Porque nem tudo que pede urgência precisa, de fato, ser atendido com urgência. E, às vezes, é no intervalonesse espaço tão pouco valorizadoque algo verdadeiramente novo pode surgir.

 

Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe

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