Existe um tipo de cansaço que não aparece nos exames. Não tem febre, não tem inflamação, não tem nome clínico imediato. É aquele cansaço que chega depois de um dia em que “não aconteceu nada”, mesmo assim o corpo pesa, a cabeça não para, e a única coisa que se quer é que o mundo faça silêncio por um momento. Um cansaço que, quando tentamos explicar, encontra de volta a pergunta desconcertante: “Mas você fez o quê hoje?” Vivemos num tempo em que o descanso precisou aprender a se justificar. Não é apenas que trabalhamos demais, embora trabalhemos. É que aprendemos a habitar uma relação com o tempo em que parar passou a exigir razão suficiente. O descanso tornou-se um prêmio, não uma necessidade. Algo que se conquista depois da produtividade, não algo que a antecede e a sustenta. E quando o corpo para antes que a permissão interna chegue, o que surge não é descanso, é culpa. A psicanálise oferece uma lente precisa para esse fenômeno. Freud já observava que o eu (o ego) não é apenas u...