Existe um tipo de cansaço que não aparece nos exames. Não tem febre, não tem inflamação, não tem nome clínico imediato. É aquele cansaço que chega depois de um dia em que “não aconteceu nada”, mesmo assim o corpo pesa, a cabeça não para, e a única coisa que se quer é que o mundo faça silêncio por um momento. Um cansaço que, quando tentamos explicar, encontra de volta a pergunta desconcertante: “Mas você fez o quê hoje?” Vivemos num tempo em que o descanso precisou aprender a se justificar.
Não é apenas que trabalhamos demais, embora trabalhemos. É que aprendemos a habitar uma relação com o tempo em que parar passou a exigir razão suficiente. O descanso tornou-se um prêmio, não uma necessidade. Algo que se conquista depois da produtividade, não algo que a antecede e a sustenta. E quando o corpo para antes que a permissão interna chegue, o que surge não é descanso, é culpa.
A psicanálise oferece uma lente precisa para esse fenômeno. Freud já observava que o eu (o ego) não é apenas um executor de tarefas, mas uma instância que consome energia psíquica considerável só para se manter coeso, arbitrar entre os impulsos internos e as exigências do mundo externo é um trabalho invisível, mas ininterrupto. Winnicott foi além ao distinguir entre o ser e o fazer. O fazer é a atividade, a resposta, a produção visível. O ser é anterior, é aquela capacidade de existir sem precisar provar nada, de estar presente sem que isso precise resultar em algo mensurável. Para ele, a saúde psíquica começa justamente aí, na possibilidade de ser antes de fazer.
O problema é que vivemos numa cultura que inverte essa ordem. Valemos pelo que fazemos. E quando não fazemos, sentimos, muitas vezes sem conseguir nomear, que não valemos.
Esse é um dos paradoxos mais silenciosos da contemporaneidade, o fato de que a pessoa que não consegue descansar não é necessariamente ambiciosa ou viciada em trabalho. Muitas vezes, ela simplesmente não aprendeu , não teve ensinada que sua presença no mundo tem valor independente de sua utilidade. Que existir não é uma dívida a ser paga em produtividade.
Bion nos ajuda a compreender o que acontece quando tentamos parar e não conseguemos. Ele descreveu algo que chamou de capacidade negativa, que é a habilidade de permanecer num estado de abertura, suspensão e não-saber sem a ansiedade preencher imediatamente esse vazio com atividade compulsória. Não é passividade, é tolerância ao silêncio interno. Quem não desenvolveu essa capacidade — e muitos não desenvolveram, porque os ambientes em que cresceram também não a ofereciam — experimenta o repouso como ameaça, não como refúgio. O descanso, então, não descansa, ele inquieta.
Há ainda uma camada mais funda. O cansaço contemporâneo não é apenas físico nem apenas psicológico, ele é também relacional. Vivemos conectados de modo ininterrupto, mas essa conexão raramente é nutritiva no sentido profundo do termo. As trocas são rápidas, superficiais, performáticas. Respondemos, reagimos, aparecemos, mas raramente nos sentimos verdadeiramente encontrados. E há algo no psiquismo humano que precisa de encontro genuíno para se restaurar. Não de estímulos, mas de presença.
Ferenczi, entre todos os psicanalistas, talvez seja quem mais tenha insistido nessa dimensão. Para ele, o que cura na análise e, em certo sentido, na vida, é a experiência de ser recebido por um outro que não exige desempenho. Um outro que acolhe o que você é, não apenas o que você produz. É uma experiência simples de nomear e rara de encontrar. E quando ela falta de modo sistemático (na infância, nas relações adultas, no trabalho, nas redes sociais), o psiquismo acumula um débito que nem sempre consegue contabilizar, mas que o corpo eventualmente apresenta.
O que chamamos de epidemia de ansiedade, burnout, síndrome do pânico, insônia crônica, são, em muitos casos, o preço que mente e corpo cobram por uma vida que nunca aprendeu a pausar. Não porque as pessoas sejam fracas. Mas porque a pausa nunca foi ensinada como direito. Porque o silêncio nunca foi apresentado como lugar seguro. Porque descansar de verdade, sem culpa, sem o olho no relógio e a lista mental das pendências, exige uma permissão interna que ninguém concede se ninguém, antes, a demonstrou.
E aqui a questão deixa de ser apenas individual. Se o descanso virou privilégio, se o silêncio virou sintoma, se parar virou fraqueza, isso não é falha de caráter de ninguém. É uma produção cultural, histórica, econômica. É um mundo organizado para lucrar com a inquietude.
Reconhecer isso não resolve, mas abre algo. Porque entre o cansaço que envergonha e o cansaço que pode ser nomeado existe uma distância e é nessa distância que começa, talvez, a possibilidade de algo diferente. Não a solução mágica, não o descanso perfeito. Mas uma pergunta honesta, dirigida a si mesmo com alguma gentileza: o que eu precisaria para poder parar, de verdade, sem que isso parecesse uma derrota? É uma pergunta pequena. E pode mudar muita coisa.
Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe
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