Acabo de assistir o filme Michael, dirigido por Antoine Fuqua e protagonizado por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor, cuja semelhança física e performática impressiona, este longa poderia facilmente render-se à lógica das cinebiografias convencionais: o menino pobre que venceu, o talento que conquistou o mundo, a fama como redenção. Mas há algo mais inquieto e mais honesto atravessando a obra. Por baixo do brilho dos palcos, dos figurinos e das coreografias que definiram uma época, o filme sugere uma pergunta diferente e mais perturbadora: o que aconteceu com a criança que precisou crescer rápido demais? É essa pergunta que confere a este filme uma dimensão psicanalítica genuína, na minha opinião.
Antes do ícone, havia um menino. E esse menino foi submetido, desde muito cedo, a uma pressão que não lhe pertencia: a pressão de performar, de corresponder, de ser perfeito para que o desejo dos outros (do pai, do mercado, do público) pudesse ser satisfeito. Winnicott nos ensinou que o desenvolvimento emocional saudável depende de um ambiente suficientemente bom, ou seja, um entorno capaz de acolher a espontaneidade da criança sem exigir dela uma adaptação precoce e forçada ao mundo adulto. Quando esse ambiente falha, a criança não desaparece, ela se adapta. Constrói aquilo que Winnicott chamou de falso self, uma organização psíquica voltada para fora, que aprende a funcionar em conformidade com o desejo alheio, enquanto algo mais frágil e autêntico, o verdadeiro self, vai sendo mantido em silêncio, protegido, às vezes por décadas. O falso self não é mentira nem fingimento; é sobrevivência. É a saída possível quando existir de forma genuína parece perigoso demais.
No filme, a performance de Michael parece cumprir exatamente essa função estrutural. Dançar com perfeição, cantar com precisão milimétrica, encantar multidões, tudo isso não era apenas talento; era também uma forma de permanecer vivo psiquicamente dentro de um ambiente que oferecia amor condicionado à excelência. O palco, nesse sentido, não era apenas o lugar onde Michael brilhava. Era o lugar onde ele sabia, com alguma segurança, como existir, onde as regras eram claras, o reconhecimento estava garantido e o self não precisava temer o abandono.
Ferenczi, um dos pensadores mais finos e corajosos da tradição psicanalítica, foi quem mais se aprofundou na compreensão do trauma precoce e de seus efeitos sobre a subjetividade infantil. Ele observou que crianças expostas prematuramente a exigências emocionalmente violentas (e a violência aqui não precisa ser física); pode ser a imposição implacável das expectativas de um adulto, a ausência de espaço para o erro, a confusão entre a necessidade da criança e o desejo do pai, tendem a desenvolver o que ele chamou de maturidade prematura. Tornam-se excessivamente atentas ao humor do outro, aprendem a antecipar o que delas se espera e constroem uma competência que impressiona de fora, mas que, por dentro, carrega o peso de partes emocionais que nunca puderam se desenvolver no ritmo que lhes seria próprio. A criança traumatizada, dizia Ferenczi, frequentemente se torna guardiã do equilíbrio emocional do adulto e não o contrário.
Há algo profundamente ferencziano em Michael Jackson. O filme sugere um sujeito que aprendeu, desde a infância, a oferecer excelência como moeda de troca pelo amor paterno e que, ao fazer isso repetidamente, foi internalizando uma lógica cruel, a de que sua existência só tem valor quando está em performance. A consequência disso não é apenas o esgotamento; é uma ferida narcísica estrutural, uma dificuldade profunda de sentir-se real, digno e amado fora do palco.
Bion nos oferece outro ângulo para compreender essa dinâmica. Ele propôs que o psiquismo infantil precisa de um continente, em outras palavras, uma presença capaz de receber as emoções brutas e indigestas da criança, transformá-las em algo suportável e devolvê-las de forma que possam ser pensadas e integradas. Quando essa função continente é exercida de forma insuficiente ou distorcida (quando o pai, em vez de acolher a ansiedade do filho, devolve exigência, pressão e medo), a criança permanece com elementos psíquicos que não conseguem ser metabolizados. Eles não desaparecem; ficam como resíduos que buscam saída em outras vias. A arte, o corpo, a reinvenção constante de si mesmo podem ser compreendidos, nessa perspectiva, como tentativas de processar aquilo que nunca foi suficientemente pensado em relação.
O filme não reduz essa história a uma narrativa de destruição. E faz bem. Porque Michael Jackson não apenas sofreu, ele criou. E criou de forma extraordinária, persistente, quase obstinada. Cada reinvenção estética (o corpo, a voz, os cenários, a própria identidade visual) parece carregar não apenas ousadia artística, mas também uma tentativa contínua de reorganização psíquica. Figueiredo, pensador brasileiro de grande envergadura, nos lembra que a presença autêntica de um sujeito não é algo dado de uma vez por todas; ela precisa ser continuamente construída e reconstruída diante das vicissitudes da existência. Nesse sentido, cada fase criativa de Michael pode ser lida como uma busca, às vezes desesperada, às vezes luminosa, por uma forma de existir que fosse mais sua, mais habitável, menos dolorosa.
A arte surge assim não como ornamento, mas como linguagem para aquilo que nunca encontrou palavras suficientes. A música como o lugar onde a dor ganha forma sem precisar ser nomeada diretamente. O espetáculo como o espaço potencial, no sentido winnicottiano, onde o sujeito pode existir de forma mais livre do que lhe foi permitido na vida cotidiana.
É aí que reside algo profundamente humano na trajetória que o filme narra. Resiliência, aqui, não significa ausência de sofrimento nem superação heróica do passado. Significa continuar produzindo sentido mesmo quando a vida interna ameaça colapsar. Significa insistir em criar quando seria mais compreensível, e talvez mais honesto, sucumbir ao desamparo. Michael Jackson continuou cantando, reinventando, imaginando novos mundos. E talvez seja exatamente isso que sua figura ainda mobiliza tanto no imaginário coletivo, porque ela toca algo universal. A luta entre a dor de existir e o desejo de permanecer subjetivamente vivo.
Michael nos lembra que, por trás do mito, havia alguém tentando transformar agressões em beleza, solidão em arte e trauma em linguagem. E talvez seja justamente aí, nessa tentativa permanente, nessa insistência em criar apesar de tudo, que sua obra encontre sua dimensão mais profundamente humana.
Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe
Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe
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