Vivemos um tempo em que quase tudo é urgente. O trabalho exige, as contas vencem, os compromissos se acumulam. Em meio a essa rotina acelerada, estar presente na escola do filho é um gesto que carrega significado profundo: é a afirmação de que o futuro importa. Quando família e escola se encontram, algo maior do que uma reunião acontece — constrói-se uma ponte. E essa ponte não é feita de concreto, mas de confiança. A criança percebe, mesmo sem que ninguém lhe diga explicitamente, quando os adultos que a cercam caminham na mesma direção. Essa percepção silenciosa é o que lhe dá segurança para crescer.
A psicanálise, especialmente a partir das contribuições de Donald Winnicott, nos ensina que não é a perfeição que forma um sujeito saudável, mas a constância de um ambiente suficientemente bom. Isso significa um espaço onde a criança pode errar sem ser humilhada, pode chorar sem ser ignorada, pode ser contrariada sem deixar de ser amada. Um ambiente suficientemente bom não elimina frustrações — ele ensina a suportá-las. Acolhe, mas também delimita. Protege, mas também prepara para o mundo. Quando família e escola se reconhecem como corresponsáveis por esse ambiente, fortalecem as bases emocionais que sustentarão o adulto de amanhã.
Falar em saúde mental ainda desperta medos e preconceitos. Muitos a associam a algo extremo, distante, grave. No entanto, saúde mental é, antes de tudo, algo cotidiano: a capacidade de nomear sentimentos, de pedir ajuda, de tolerar frustrações, de aprender com os erros. Corpo e mente não caminham separados. A dor de barriga antes da prova, a insônia nas noites difíceis, o cansaço que não passa — tudo isso pode ser a linguagem do que não foi dito. Quando uma criança muda bruscamente de comportamento, isola-se ou torna-se excessivamente agressiva, talvez não esteja “dando trabalho”: talvez esteja pedindo socorro.
O sintoma, nesse sentido, não é um inimigo — é uma mensagem. Ele revela que algo, no mundo interno da criança ou do adolescente, precisa ser escutado. Abafar o sintoma é como silenciar um alarme sem apagar o incêndio. É mais fácil oferecer um remédio para a dor de cabeça do que perguntar o que dói na alma. Mas é justamente nessa pergunta — feita com calma e interesse genuíno — que começa o cuidado verdadeiro. Escutar é um ato de coragem, porque exige tempo e disponibilidade emocional.
Entre os grandes desafios contemporâneos está a questão dos limites. Muitos adultos, marcados por infâncias rígidas, temem repetir o autoritarismo que sofreram. Na tentativa de não ferir, acabam por não delimitar. No entanto, a ausência de limites não gera liberdade — gera insegurança. Limite é estrutura. É o “não” que protege, que organiza, que ensina a conviver. A vida adulta é inevitavelmente atravessada por frustrações, e quem não aprende a lidar com elas na infância tende a se despedaçar diante das primeiras negativas do mundo. O “não”, quando sustentado com afeto, é uma das formas mais profundas de amor.
A responsabilidade afetiva é outro ponto central. As palavras dos adultos têm peso formador. Uma explosão de raiva pode ser esquecida por quem a pronuncia, mas ecoa por anos em quem a escuta. A criança ainda não possui recursos psíquicos para separar o cansaço do pai ou da mãe de uma suposta falha sua. Muitas vezes, ela conclui silenciosamente: “Eu sou o problema.” Cuidar da mente também é cuidar da forma como falamos, do que projetamos, do que responsabilizamos indevidamente. Proteger a criança das tensões do mundo adulto é um gesto de maturidade emocional.
No cenário atual, as tecnologias ocupam um lugar ambíguo: aproximam e afastam, divertem e anestesiam. Quando o uso da tela se torna excessivo, talvez não estejamos diante apenas de um hábito, mas de uma tentativa de preencher um vazio. A tela oferece estímulo constante, distração imediata, fuga das angústias. Nada, porém, substitui o olhar atento, o abraço demorado, a escuta sem pressa. Se desejamos reduzir o tempo de tela, precisamos oferecer presença. Não se trata apenas de retirar, mas de substituir. A criança aprende muito mais pelo exemplo do que pelo discurso.
O exercício de imaginar nossos filhos daqui a vinte anos revela algo essencial: no fundo, quase todos desejamos o mesmo. Não é apenas sucesso financeiro ou reconhecimento social — é equilíbrio. É a capacidade de amar e ser amado. É força para atravessar perdas sem se perder de si mesmo. E isso não se constrói na véspera do vestibular, mas nas pequenas interações diárias, nos gestos repetidos, nas conversas aparentemente simples.
A grande mensagem permanece: cuidar da mente é cuidar do futuro. Mas esse futuro não se resume a diplomas ou conquistas externas — traduz-se na formação de um adulto capaz de sustentar sua própria história com dignidade e sentido. A psicanálise nos lembra que três pilares sustentam esse percurso: presença, escuta e limite. Presença que acolhe, escuta que legitima, limite que organiza.
Educar é, acima de tudo, um exercício contínuo de humanidade compartilhada. Quando escola e família se reconhecem como parceiras nessa tarefa, deixam de disputar responsabilidades e passam a construir caminhos. E é nesse encontro — imperfeito, mas comprometido — que o futuro começa a ser cuidado, todos os dias.
Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe
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