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Amor em tempos de deslize: vínculos frágeis e o mal-estar no encontro



Vivemos em tempos em que um simples movimento de dedo pode abrir ou encerrar a possibilidade de um encontro. Basta deslizar para a direita ou para a esquerda. Essa facilidade — ao mesmo tempo fascinante e inquietante — espelha um novo modo de se relacionar: mais rápido, mais leve, aparentemente mais livre e, paradoxalmente, mais solitário.

Não se trata apenas do Tinder ou de outros aplicativos de encontro. Eles são o sintoma mais visível de algo mais profundo: uma transformação na forma como o amor, o desejo e os vínculos vêm sendo vividos na contemporaneidade. O que está em jogo é uma nova lógica relacional, marcada pela descartabilidade, pela ansiedade da escolha e pela idealização de um encontro perfeito que talvez nunca se concretize.

Zygmunt Bauman descreveu esse cenário como a era da modernidade líquida — uma fase histórica em que nada é feito para durar e tudo precisa ser flexível, ajustável, facilmente substituível. As relações afetivas não escapam dessa lógica. Ao contrário: tornam-se frágeis, superficiais, guiadas pelo medo da entrega e pela busca incessante de novidade. Há sempre alguém mais interessante a poucos cliques de distância. E isso torna cada vez mais difícil sustentar o desejo — que, como a psicanálise nos ensina desde Freud, exige tempo, elaboração e, sobretudo, aceitação da falta.

Freud já indicava, em O Mal-Estar na Cultura (1930), que o sofrimento humano tem três origens: o corpo, o mundo externo e os vínculos com os outros. Esta última fonte — a que ele chamou de das Leid proveniente das relações — é talvez a mais dolorosa, exatamente porque é a mais desejada. A cultura organiza dispositivos para atenuar esse sofrimento; mas a tecnologia digital, ao prometer conexão infinita, pode estar produzindo o seu inverso: um excesso de disponibilidade que, paradoxalmente, empobrece o encontro. 

Nesse universo de possibilidades ilimitadas, o outro corre o risco de se tornar apenas um espelho — alguém que me valida, me confirma, me satisfaz, mas que não me confronta, não me interpela, não me transforma. A alteridade se esvazia. Winnicott, ao teorizar sobre o uso do objeto, distinguia a relação de objeto — onde o outro existe apenas como extensão do self — do uso do objeto, que pressupõe sua sobrevivência à destrutividade e, por isso mesmo, sua existência real, exterior, irredutível ao eu. O amor maduro requer que o outro sobreviva às nossas projeções e idealizações. Mas, nos vínculos líquidos, essa sobrevivência raramente tem tempo de se dar.

Quando o outro já não serve, desaparece: bloqueado, ignorado, silenciado. O ghosting — esse fenômeno contemporâneo de desaparecimento sem explicação — talvez seja a expressão mais sintomática da impossibilidade de tolerar o conflito e o desconforto inerentes a qualquer vínculo real. Do ponto de vista psicanalítico, o ghosting não é indiferença pura: é uma forma de defesa contra a angústia de separação, uma maneira de “matar o outro” sem ter de elaborar a perda — privando a si mesmo e ao outro do luto necessário.

Bion nos ajuda a compreender que a capacidade de se relacionar depende da função alfa — essa operação psíquica que transforma experiências brutas em elementos pensáveis, elaboráveis. O que se observa clinicamente hoje é um déficit nessa capacidade: as experiências afetivas chegam com alta intensidade e baixa possibilidade de simbolização. O excesso de oferta digital funciona como um sistema que produz continuamente elementos beta — impressões não metabolizadas — sem que haja continência suficiente para transformá-los em pensamento e afeto elaborado.

A psicanálise também nos alerta para as repetições inconscientes que se reatualizam nesses encontros rápidos e voláteis. Ferenczi, pioneiro na atenção ao trauma relacional, mostrava como rejeições precoces, abandonos e desvalorizações deixam marcas que o sujeito não recorda, mas repete. O aplicativo de relacionamento pode parecer uma brincadeira leve, mas para muitos toca em feridas antigas — e transforma o amor em zona de alto risco emocional. A pressa impossibilita a construção de confiança. A pressão para performar e agradar — para ser um perfil atraente antes de ser uma pessoa — reedita antigas experiências de ser amado de forma condicional.

Lacan, por sua vez, sublinhava que o amor é sempre, em alguma medida, uma demanda dirigida ao Outro: “dá-me o que não tens”. O amor não é a fusão dos semelhantes, mas o encontro marcado pela falta. O que a cultura digital promete — a completude via o perfil ideal — é precisamente o que o desejo, em sua estrutura, recusa. O desejo se sustenta na falta, não na satisfação. Por isso, a promessa de que há sempre “alguém melhor” não alivia — aprofunda o mal-estar.

Muitos chegam ao consultório confusos, exaustos, marcados por relações que mal começaram e já terminaram, sem deixar espaço para o luto ou a elaboração. Por trás da aparente liberdade relacional, esconde-se frequentemente o pavor do contato profundo: o medo de se implicar com alguém real, imperfeito, imprevisível. É o que Winnicott chamaria de dificuldade de estar só na presença do outro — essa capacidade paradoxal, construída na infância com um ambiente suficientemente bom, que permite intimidade sem fusão, presença sem invasão.

Ainda assim, o desejo insiste. E é exatamente aí que mora a possibilidade. Apesar do cansaço, muitos continuam buscando — não um perfil ideal, mas uma experiência que faça sentido. Um encontro que não seja apenas um match, mas um espaço possível de afeto e transformação mútua. Amar hoje é desafiador, mas não é impossível. Exige a coragem de desacelerar, de tolerar o desencontro, de sustentar a diferença — e de permitir que o outro exista para além das nossas projeções.

Talvez o que mais falte hoje não sejam pessoas disponíveis, mas disponibilidade psíquica: para escutar, para esperar, para se afetar. Essa disponibilidade não se encontra deslizando telas. Ela se constrói — encontro por encontro, palavra por palavra, silêncio por silêncio. E, muitas vezes, com a ajuda de um espaço clínico que ofereça a continência necessária para que o sujeito possa, enfim, arriscar o que mais teme: ser encontrado.

Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe

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