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Finados: o trabalho psíquico de habitar a ausência

O Dia de Finados oferece, à luz da psicanálise, uma oportunidade singular de pensar a relação do sujeito com a perda e a morte. A morte não é apenas um evento biológico, mas uma experiência psíquica fundante, que confronta o eu com sua condição de falta e com a impossibilidade de onipotência. O que se comemora nesse dia, portanto, não é a morte em si, mas o trabalho psíquico necessário para sustentá-la simbolicamente — aquilo que Freud denominou  Trauerarbeit , o “trabalho do luto”. Em  Luto e Melancolia  (1917), Freud descreve o luto como um processo de desligamento libidinal: o investimento afetivo depositado no objeto perdido precisa ser retirado, pouco a pouco, para que a energia possa ser reinvestida em novos objetos. A perda, nesse sentido, não é um simples “esvaziamento”, mas um processo ativo de transformação psíquica. Quando esse trabalho falha, surge a melancolia — estado em que o sujeito se identifica com o objeto perdido, dirigindo contra si a agressividade qu...

O carrinho vazio e o coração cheio: reflexões sobre o desejo na era do consumo

Há algo profundamente revelador no fato de que a Black Friday tenha se tornado um dos eventos mais aguardados do calendário brasileiro. Não se trata apenas de economia doméstica ou oportunismo comercial. Estamos diante de um fenômeno que desnuda, com precisão cirúrgica, as contradições da condição humana contemporânea: a promessa de felicidade através da posse, o alívio momentâneo da angústia existencial e a perpétua busca por um objeto que finalmente nos complete. A falta que nos constitui Sigmund Freud, ao mapear os territórios do inconsciente, descobriu algo que o marketing contemporâneo conhece muito bem: somos seres de falta. Não uma falta acidental, que pode ser preenchida com o objeto certo, mas uma falta estrutural, constitutiva de nossa humanidade. É ela que nos move, que nos faz desejar, criar, sonhar. Paradoxalmente, é também ela que nos torna vulneráveis às promessas de completude que o mercado oferece a cada nova campanha publicitária. Jacques Lacan radicalizou essa compre...

A incomensurável dança da psique: reflexões sobre a alma, o algoritmo e a essência da cura humana

Em um tempo onde a inteligência artificial (IA) promete redefinir os contornos de nossa existência, dos lares às fábricas, das finanças à medicina, somos compelidos a um questionamento fundamental: qual o lugar da máquina no intrincado e profundamente humano universo da saúde mental? Será que algoritmos, por mais sofisticados que se tornem, podem realmente adentrar os labirintos da alma e guiar-nos à cura? Este ensaio propõe uma jornada reflexiva, ancorada na psicanálise, para argumentar que a essência da terapia e da transformação psíquica reside em uma dimensão irredutivelmente humana, inacessível ao frio cálculo algorítmico.   A pedra angular dessa distinção reside na concepção freudiana do inconsciente. Não é um mero depósito de dados ocultos, mas um caldeirão dinâmico de desejos, fantasmas, traumas e representações, estruturado por uma lógica que desafia a linearidade e a objetificação. A IA, em sua essência, é um processador de informações; ela opera com padrões, probabilidad...

A tragédia da liminaridade e o desvelar do inquietante: a criatura de Frankenstein entre mundos e psiques

A criatura concebida por Victor Frankenstein ultrapassa a imagem simplista de um “monstro” ou de um “humano artificial”. Ela encarna um dos dilemas existenciais mais pungentes da literatura: o de habitar uma condição liminar. Não pertence ao mundo dos homens, que a temem e a rejeitam, tampouco ao mundo dos monstros, do qual seria a única habitante. Sua constituição feita de “pedaços de muitos” não é apenas uma descrição anatômica, mas uma metáfora radical para sua identidade fragmentada e para sua incessante busca por um lugar no universo. Nessa chave, a psicanálise ilumina camadas mais profundas de sua tragédia, revelando a experiência da alteridade, da exclusão e da impossibilidade de simbolizar plenamente a própria origem. Desde o seu “nascimento”, a criatura é um ser sem categoria. Sua colagem heterogênea desafia as noções de unidade, filiação e origem natural. Ao mesmo tempo, ela pensa, sente e aprende, aspirando à conexão, ao amor e à aceitação — desejos profundamente humanos. Ma...

O que é "cura" para a psicanálise? Um convite à ética da singularidade

A questão da "cura" em psicanálise é um dos pontos mais sensíveis e frequentemente mal compreendidos do campo. Longe de se alinhar à acepção médica que concebe a cura como a erradicação de uma patologia e o retorno a um estado de "normalidade" predefinida, a psicanálise propõe uma transformação estrutural da posição subjetiva do analisando frente ao seu mal-estar, ao seu desejo e à própria contingência da existência. Não se trata de uma supressão de sintomas, mas de uma reconfiguração da economia psíquica que os produziu. 1. As raízes freudianas: do sintoma à resignificação Para Sigmund Freud, o sintoma neurótico é uma formação de compromisso, um retorno do recalcado, uma tentativa do aparelho psíquico de dar conta de um conflito inconsciente insolúvel. Ele é um vestígio, uma representação simbólica de um desejo ou de uma vivência traumática que não pôde ser integrada. A meta da análise freudiana, portanto, não era simplesmente "eliminar" o sintoma, mas si...

Groot, o inconsciente e a criação de mundos

Dias atrás, uma analisante caiu na gargalhada quando falei que coloquei o Groot no divã para que, a partir da análise, ele pudesse vir a ser ele mesmo, sem entrar em crise por não se parecer nem com as árvores da Terra, nem com os seres humanos. A figura de Groot, o Flora Colossus que só fala “Eu sou Groot”, transcende o universo Marvel para se tornar uma metáfora visceral do inconsciente, não como um depósito de conteúdos reprimidos, mas como um processo gerador de mundos. Através das lentes dos psicanalistas contemporâneos Christopher Bollas, Thomas Ogden e Antonino Ferro, podemos escutar na jornada de Groot um eco profundo do trabalho de transformação psíquica que ocorre na análise. Christopher Bollas e o "self idiomático" de Groot: a essência que insiste em brotar Para Christopher Bollas, cada sujeito possui um “self idiomático” – uma assinatura psíquica única e inefável, uma espécie de destino estético que busca se expressar no mundo. O sintoma, nessa perspectiva, é muit...

O mal-estar na (super)modernidade: a psicanálise diante do sujeito hiperconectado e esvaziado

Se Freud escreveu sobre o mal-estar na civilização diante do custo pulsional imposto pela cultura do século XX, os psicanalistas contemporâneos se debruçam sobre um novo paradoxo: o sujeito do século XXI é simultaneamente hiperconectado e profundamente solitário, inundado de signos de gozo e, no entanto, esvaziado de desejo. Como a clínica psicanalítica, herdeira de Freud e Lacan, responde a esse novo cenário? A tirania do ideal e a fragmentação do sujeito Vivemos sob a égide do que o psicanalista Christian Dunker denominou como "o ideal de performatividade". Este imperativo social exige que sejamos sempre otimizados, felizes, produtivos e belos. Nas redes sociais, somos curadores de uma self mitológica, um eu ideal esculpido para likes. Dunker alerta que essa performance constante gera uma angústia silenciosa, pois o sujeito fica esfacelado entre quem ele é e quem ele deve aparentar ser. O resultado não é a repressão clássica, mas uma exaustão subjetiva e uma dificuldade rad...
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